Voluntariado deve ir além de iniciativas pontuais para ter resultados duradouros

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Para aumentar o impacto das ações sociais e do trabalho voluntário, é preciso investir no planejamento de iniciativas de longo prazo e na capacitação dos colaboradores envolvidos.

"O voluntariado precisa de uma estrutura, precisa de alguém gerindo os participantes, precisa de capacitação. Isso contribui com a motivação de todos", diz Daniel Assunção, fundador da plataforma Atados, que conecta pessoas a ONGs.

Assunção foi um dos participantes do seminário Voluntariado na Educação, realizado em conjunto pela Folha, pelo Itaú Social e pelo Instituto Unibanco. O evento, realizado na última quinta-feira (2), foi mediado pela jornalista Laura Mattos.

Para Tatiana Sayegh, coordenadora da frente de voluntariado da Turma do Jiló, associação sem fins lucrativos que trabalha com educação inclusiva, é importante desmistificar a cultura do assistencialismo, ainda forte no país, que se traduz principalmente em ações pontuais, como a distribuição de alimentos.

Na opinião dela, essa atuação é importante em cenários de emergência, como o que aconteceu durante a pandemia de coronavírus, porém o comprometimento por períodos maiores gera resultados mais duradouros.

Assunção vai na mesma linha. "É muito importante ter uma metodologia e um processo. Por que o resultado acontece a longo prazo", afirma. Para ele, o voluntariado no país ainda tem espaço para crescer muito.

Pesquisa Datafolha realizada entre os dias 18 e 27 de outubro mostra que há ambiente para um maior engajamento da população. De acordo com o estudo, 83% dos brasileiros consideram o trabalho voluntário muito importante.

Do total de entrevistados — 1.871 pessoas, 33% já se envolveram em algum tipo de trabalho voluntário e 15% contribuem com alguma causa atualmente.

O levantamento, que traça um panorama sobre o interesse da população sobre voluntariado, foi apresentado durante o seminário.

"Os números mostram que há uma ampla disposição dos brasileiros em ajudar. A máxima de que o brasileiro é solidário foi comprovada pela pesquisa", diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.

Entre os jovens, o estudo mostra um interesse menor: 69% consideram atividades voluntárias muito importantes, 30% já se envolveram em alguma ação e 7% são voluntários atualmente.

"Quando explicamos para os jovens que a filantropia cuida da raiz do problema, temos uma chance maior de eles entenderem como trabalhar para uma mudança social significativa", afirma Tatiana Sayegh, da Turma do Jiló. Para Assunção, da Atados, é preciso oferecer estrutura para que o jovem se engaje em atividades em que possa, ao mesmo tempo, contribuir socialmente e adquirir experiências importantes.

Um caminho para envolver esse público é dar ferramentas para que eles consigam, de acordo com Wesla Monteiro, presidente do Mapa Educação, movimento que quer mobilizar jovens em prol de melhores políticas públicas para o ensino —educação foi a terceira atividade mais citada por aqueles que desempenham trabalho voluntário, na pesquisa Datafolha.

"Para termos uma educação que responda às demandas do jovem no Brasil, o principal interessado precisa estar na mesa, entender sobre o tema e ajudar a formular boas políticas públicas", diz Monteiro.

Coordenadora de engajamento social e leitura do Itaú Social, Dianne Melo chama atenção para o papel importante de escolas envolvidas em ações sociais, principalmente no cenário da pandemia, em que muitas crianças e adolescentes não tiveram acesso a atividades educacionais.

Segundo um levantamento feito pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em 2020, 5,1 milhões de meninos e meninas entre 4 e 17 anos não tiveram acesso à educação no Brasil. A pesquisa contabilizou tanto crianças e adolescentes que não frequentavam a escola quanto aqueles que estavam matriculados em instituições, mas não tiveram acesso a atividades durante a pandemia.

"É importante que a sociedade civil pense como trabalhar em conjunto para garantir acesso, permanência e retorno das crianças para as escolas", afirma Melo.

Na opinião da gestora, os professores são peças fundamentais para recuperar o aprendizado das crianças, porque eles conhecem as famílias e sabem quais as principais demandas dos alunos.

O levantamento do Datafolha também traz números de professores de escolas públicas engajados em ações sociais: 91% dos educadores reconhecem a importância do trabalho voluntário, 53% já participaram de ações e 27% atuam como voluntários atualmente.

Wesla Monteiro, do Mapa Educação, diz que as instituições estão abertas para receber iniciativas da sociedade civil. "Não é difícil entrar nas escolas e não é difícil engajar os professores. Se tivermos uma boa metodologia, estamos oferecendo boas ferramentas para a educação."

Outro ponto abordado pelos participantes foi a importância do trabalho voluntário dentro das empresas. Para Daniel Assunção, do Atados, o movimento tem crescido para além de ações pontuais e se tornado parte da estratégia de atuação e dos valores de corporações.

"O voluntariado tem se transformando em uma maneira das empresas atuarem socialmente com todas suas habilidades, incluindo seus recursos e talentos."

Dianne Melo, do Itaú Social, explica que, para esses programas funcionarem, o voluntário precisa de motivação. "A primeira questão é despertar nos colaboradores aquilo que os move." Com isso, a empresa pode identificar os interesses dos funcionários ajudando-os a ver onde podem contribuir positivamente.

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