Versão urbana de 'Grande Sertão: Veredas' leva rap ao universo de Guimarães Rosa

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Parceiros de telas e palcos há pelo menos 30 anos, Jorge Furtado e Guel Arraes começam a filmar dentro de um mês a versão de “Grande Sertão: Veredas” para o cinema, como relataram durante a entrevista dada nesta segunda-feira (20) ao Roda Viva, da TV Cultura. O enredo de Guimarães Rosa será transposto para o contexto da guerra urbana centrada nas favelas, por meio de uma comunidade batizada justamente como Grande Sertão.

Furtado e Arraes estiveram no programa da Cultura para falar de “O Debate”, livro que simula um suposto debate entre Lula e Jair Bolsonaro às vésperas de um hipotético segundo turno em outubro de 2022. Mas já adiantaram mais detalhes sobre “Grande Sertão”, que deveria ter sido filmado no ano passado, mas foi interrompido pela pandemia.

Segundo Arraes, os dois sempre pensaram em tratar da violência urbana por um ponto de vista múltiplo, incluindo até o olhar do bandido. “O ‘Cidade de Deus’ é o ponto de vista da favela. O ‘Tropa de Elite’ tem o ponto de vista da polícia. A gente queria uma história que tivesse também o ponto de vista do bandido, mas é difícil pensar nisso de uma forma que não pareça estar defendendo o bandido”, disse Arraes.

Ao mesmo tempo, os dois pensam há muito tempo em adaptar “Grande Sertão” para as telas, e um projeto casou com o outro quando Heitor Dália ofereceu a oportunidade de levar o livro de Guimarães aos cinemas. “O Heitor tinha possibilidade de ter os direitos do livro e nos ofereceu”, afirmou Arraes.

“O ‘Grande Sertão: Veredas’ é, na opinião de muita gente, e na minha também, o maior livro já escrito na língua portuguesa”, disse Furtado. “A sabedoria daquele livro não termina. Quem consegue ultrapassar o início e mergulhar na linguagem daquele livro nunca mais se livra dele”, avisou, torcendo para que o filme leve muita gente a devorar a obra.

A tarefa mais árdua dessa transposição é preservar a poética e a linguagem de Guimarães, “que é  absolutamebnte encantadora”, afirmou Arraes. A favela do filme não será uma comunidade realista, antecipou Arraes.

Embora o enredo parta da percepção de que “a perifeira é descoberta como verdadeiro centro”, a comunidade não é uma periferia realista, “a ideia é criar um universo onde coubesse essa prosódia de tom operístico do Guimarães”, diz Arraes.

“É uma favela quase distópica, gigantesca, cercada por um grande muro, que parte do real, mas desrealizam”, completa, “para que caiba essa linguagem no filme e pra que essa guerra urbana seja vista como uma Ilíada”, completa.

“E a gente então pensou em tratar a guerra urbana, que de certa forma o Guimarães fez com os jagunços, mas que são bem mais cangaceiros do que jagunços, e fez em vez de um tratamento sociolócigo, um ensaio político, ele fez um drama épico, que é de certa maneira da violencia brasileira, do país que é considerado cordial, que a gente sabe que não é”, afirmou Arraes. “Ele fez isso transcendento: em vez de dizer que é uma guerra rasteira, de pés de chinelo, equivalente a uma guerra de troia, uma guerra civil americana. Aí falamos: talvez seja esse o ponto de vista que  a gente estava querendo.”

Para Furtado, a linguagem das comunidades já rege a palavra da adaptação. “De tanto ler, sei muitos pedaços de cor, é um negócio que vai entranhando aquele poema na tua cabeça, mas na hora de pesquisar e escrever, eu e Guel visitamos muito sites sobre crimes, facções, e principalmente os comentários que as pessoas faziam, as frases, elas parecem Guimarães mesmo”, comenta o gaúcho. “É impressionante como a língua não para de ser reinventada, a gente misturou algumas coisas bem atuais, eu mesmo não sei mais o que é Guimarães e o que não é”,  avisa o gaúcho, atestando sua métrica poética até em rimas internas.

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