Vacinação em massa contra Covid orgulha voluntários em estudos

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No início de agosto de 2020, quando a cidade de São Paulo somava quase 10 mil mortes por Covid-19 e 240 mil casos confirmados da doença, Antonio Luís Mota Moreira, o DJ Tonyy, 58, parou na frente da TV para assistir a uma reportagem sobre o recrutamento de voluntários para a terceira fase de testes da vacina da Pfizer contra o novo coronavírus.

Viu ali a chance de dar uma segurança a mais para a mulher, a gerente de marketing digital Tatiana Dinato, 36, do grupo de risco por ser asmática. Os dois superaram o receio de participar de um projeto incerto e, na manhã seguinte, estavam no laboratório responsável pelo recrutamento na zona sul de São Paulo.

Tonyy e Tatiana fazem parte do grupo de mais de 55 mil pessoas que desde 2020 participam de estudos clínicos de vacinas contra a Covid-19 no Brasil, segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Ao todo, são 11 projetos aprovados. No mundo, há 326 vacinas em desenvolvimento, das quais 132 na fase de testes clínicos.

Tatiana, aliás, não pretendia se candidatar ao voluntariado. "Eu dizia que ele era maluco, temia ficar viúva ou acabar doente depois, como acontece nos filmes", disse a gerente de marketing, que afirmou ter sido convencida por telefone ao conversar com um representante do laboratório.

No fim, Tonny, que queria adiantar a vacinação da mulher, é quem foi imunizado. Ela recebeu placebo, a substância injetada no voluntário que não tem as substâncias da vacina.

O DJ tomou a primeira dose cinco meses antes do início da vacinação em geral, em 17 de janeiro de 2021, mês em que finalmente Tatiana foi imunizada no projeto da Pfizer.

Ambos não foram infectados pelo novo coronavírus, já tomaram a terceira dose e vão ser monitorados durante dois anos pelo projeto, que tem visitas periódicas para realização de exames, acompanhamento médico, aplicativo para preenchimento de questionário sobre o estado de saúde e até um kit de teste para Covid em casa.

​"Foi a coisa mais importante que fiz na vida. Fui voluntário de uma vacina que está salvando vidas", diz o DJ, sobre um sentimento comum entre os voluntários ouvidos pela Folha​, o orgulho por ter colaborado com estudos que um ano depois do início da campanha de vacinação garantiram a imunização completa de 145 milhões de pessoas no país contra uma doença que já matou mais de 620 mil pessoas.

"Vi muita coisa ruim nesta pandemia, tristes, por isso, quando soube da possibilidade de me voluntariar para vacina, achei que poderia contribuir para a saúde das outras pessoas", afirmou a enfermeira Jane Cristina Dias Alves, 44, coordenadora da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) adulta do Hospital São Paulo, na zona sul da capital.

Jane foi voluntária na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) para o desenvolvimento da AstraZeneca. Ela recebeu a primeira dose em julho de 2020. E só soube que havia sido imunizada de verdade em janeiro de 2021, quando começou a vacinação dos profissionais da saúde e houve a abertura do "cegamento", que informa se a pessoa recebeu vacina ou placebo.

É um prazer muito grande participar de um estudo

A enfermeira, apesar de atuar em uma UTI que foi referência no tratamento de pacientes graves com Covid-19, não pegou a doença. Credita isso aos cuidados que manteve, à alimentação saudável, prática de esportes e à vacina que tomou antes da maioria de seus colegas no hospital. E levou o voluntariado para casa. O pai, o aposentado Valter Dias Alves, 72, fez parte dos estudos da Unifesp para a aplicação da AstraZeneca em idosos. "Fiquei sabendo que fariam o estudo no grupo de idosos, e ele se empolgou."

Jane não teve reações à injeção, mesmo tendo sido vacinada. O que não aconteceu com a enfermeira Cecília Tavares, 42, voluntária para estudos da Coronavac. Supervisora técnica da rede municipal de saúde na Vila Alpina, na zona leste, ela afirmou ter sentido o mal-estar relatado por algumas pessoas que são vacinadas. "Mas é um orgulho imenso participar de um projeto como esses."

Imunizada quando a campanha foi aberta ao público, ela pegou Covid-19 em abril do ano passado. "Fui infectada após contato com uma família que teve três mortes", afirmou.

"Não tive medo quando contraí Covid, pela garantia da vacinação, me sentia muito fortalecida", disse a enfermeira que relatou as críticas feitas por colegas ao se inscrever no programa de estudos. "Diziam que eu seria cobaia, mas eu tinha era uma satisfação de dever cumprido."

Cesar de Almeida Neto, hematologista do Dasa Hospital 9 de Julho, na Bela Vista, na região central, afirmou ter sido chamado de louco quando disse que seria voluntário dos estudos da AstraZeneca. E não se esquece daquele 27 de setembro de 2020, quando tomou a primeira dose de um placebo na Unifesp.

"Na época pensei que, se a gente iria necessitar destas vacinas, era preciso que pessoas se voluntariassem. Fui sem medo", afirmou ele, que, sem ter sido imunizado no estudo, tomou a primeira dose da Coronavac em 20 de janeiro, quando a vacina foi aplicada em médicos do Hospital 9 de Julho. "Não me vi no direito de não aceitar a Coronavac porque estava na pesquisa [da AstraZeneca], para garantir, inclusive, a segurança dos meus pacientes."

O médico foi imunizado três dias depois de a enfermeira Mônica Calazans, 55, outra voluntária que recebeu placebo, ter sido a primeira pessoa a ser vacinada contra a Covid fora de grupo de estudos no país.

A enfermeira do Instituto Emílio Ribas, que se filiou ao MDB recentemente, disse que ainda se emociona quando lembra que seu nome entrou para a história. "Tem um dedinho meu e de tantos outros profissionais de saúde."

"Colegas do Hospital das Clínicas falaram que estavam recrutando profissionais de saúde com mais de 60 anos para testes da Coronavac, daí falei na hora: 'sou eu'", brinca ainda hoje Ana Escobar, 63, pediatra e professora da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), que recebeu a segunda dose da vacina em dezembro de 2020.

A médica, que foi infectada pelo vírus no ano passado e teve sintomas leves, afirmou ter sido um "prazer gigante" participar de algo que está acontecendo em todo o mundo e que ainda usa argumentos científicos para convencer outras pessoas a se vacinarem.

Foi um grande prazer ter participado do estudo

"Muitos me chamaram de corajosa, que fui cooptada", afirmou a bióloga Cristina Piratininga Jatobá, 58, que tomou dois placebos em estudo da AstraZeneca. "Só que não participei do projeto por ato de coragem, mas para colaborar com a ciência", afirmou a também fotógrafa de teatro, que precisa fazer testes periódicos de Covid-19 para conseguir participar de editais e descobriu o voluntariado por meio de amigos da Escola Paulista de Medicina.

Para Thiago Cuesta da Silva, 41, que trabalha em UTIs nos hospitais São Paulo e Samaritano Paulista, os voluntários podem ser considerados "pilotos que pegaram um avião em pane".

"Era preciso bater no peito e tentar achar algo que freasse tudo que acontecia naquela época", disse o técnico em enfermagem, que fez parte dos estudos da ​Oxford/AstraZeneca.

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