Tunga ganha retrospectiva com obra monumental remontada pela primeira vez

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Esculturinhas de seios, ouvidos e dedos desfigurados, lagartixas, lagartos e ouroboros compõem um gabinete de objetos variados que Tunga criou, montado na nova exposição do artista no Itaú Cultural.

São pequenos protótipos do universo mítico que o escultor pernambucano alargou mais e mais —seja aglutinando a seu vocabulário ímãs, metais, ossos, cabelos, seja desdobrando esse corpo expandido dos trabalhos em peças monumentais.

Tunga vai se voltando sobre ele mesmo nas obras, afirma Paulo Venâncio Filho, que teve uma longa convivência com o artista e organiza a mostra "Tunga: Conjunções Magnéticas". É por isso, defende ele, que a exposição embaralha temporalmente os cerca de 300 itens do escultor, morto cinco anos atrás, para construir uma narrativa da obra que começa quando ele ainda tinha 18 anos.

É como a serpente que morde a própria cauda. Em desenhos ainda da década de 1970, Venâncio Filho aponta uma paleta similar a que Tunga vai explorar já no fim da vida, em 2014, na série "From ‘La Voie Humide’".

O tripé que sustenta os arranjos mais solares dessa série também está espelhado em outra peça dos anos 1970, "Piscina", que foi remontada agora depois de a original ter se perdido. "From ‘La Voie Humide’" levanta um momento em que o artista faz peças moldadas à mão e contrasta com uma fase mais sombria, permeada de caveiras, chumbo e ímãs.

"Creio que a mudança radical que se operou na minha vida foi perceber que há mais mistério na vida, na luz, do que na morte", disse ele a este jornal ainda em 2014 sobre o momento em que produzia essas peças.

Ainda assim, é claro, são esculturas que se voltam para o mundo que ele construiu. É um sistema que faz emergir o núcleo central da vida contemporânea, que ele mesmo definiu como "tão ligada ao que há de mais arcaico no sujeito quanto àquilo que há de divino no ser humano".

O corpo humano, aliás, é algo de fundamental nesse universo erótico e alquímico, e é assunto da segunda das três salas do Itaú Cultural, com a série "Morfológicas" em cerâmica, bronze e látex, e os "Eixos Exógenos", perfis de mulheres com uma rotação num tronco de madeira.

Esta é a mostra mais completa já feita dos trabalhos do Tunga —há mais de 30 obras de coleções privadas e outras que nunca ou raramente foram mostradas ao público. "Gravitação Magnética", uma peça monumental que nunca mais foi vista depois da 19ª Bienal de São Paulo, em 1987, está entre essas raridades.

As centenas de quilômetros de fios de metal que já desceram do teto ao chão no pavilhão da Bienal agora ocupam o Instituto Tomie Ohtake, que recebe parte da exposição. "Ali, Tunga experimentou pela primeira vez uma dimensão monumental que só vai reaparecer no trabalho ‘À La Lumière des Deux Mondes’ que é o trabalho apresentado no Louvre", diz o organizador da exposição. "Há uma espécie de início e término dessa ambição monumental. Depois ele nunca mais fez nada dessa grandeza em termos de escultura." Os desenhos e a maquete do trabalho também estão na mostra.

O magnetismo que dá nome à obra é central para a própria exposição. "Conjunções Magnéticas" se vale justamente da ideia do ímã como esse elemento material que representa como Tunga atraía os elementos para sua obra e dentro dela.

O Instituto Tomie Ohtake também recebe uma segunda obra fundamental do artista, "Ão", filme gravado dentro do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, que também está no núcleo central da galeria de Tunga no Inhotim. Ao som de "Night and Day", de Frank Sinatra, a filmagem dá voltas infinitas dentro do túnel e encontra espelhamento na película que entra e sai do projetor.

Este é um momento singular para ver as obras do artista. Além dos dois museus paulistanos, Inhotim inaugurou neste mês a primeira mostra do Museu de Arte Negra, projeto de Abdias do Nascimento que ganha sede por dois anos na instituição de Minas Gerais, com uma exposição que busca aproximar as pinturas do intelectual negro e de uma estética da negritude daquele período à produção de Tunga.

Está lá uma pequena pintura de um Tunga ainda mais jovem, de 15 anos, que apareceu pela primeira vez numa entrevista que o escultor deu ao Correio da Manhã. Ali, ele afirmava que a arte negra foi a primeira a "romper os grilhões das chatas imagens renascentistas".

A falta das "instaurações", termo que ele usava para se afastar do conceito de performance, traz algo de incompleto para as mostras, segundo Venâncio Filho. É uma incompletude incontornável, porém —​são obras "irreproduzíveis, que não há um protocolo", diz o organizador, "e que aconteciam em contextos diferentes, muitas vezes na presença dele".

Ainda assim, elas estarão ali com registros fílmicos e levantam uma questão nevrálgica da obra do artista. "O Tunga sempre quis dar aos trabalhos dele, à maneira como ele usou os materiais, uma certa nobreza e suntuosidade. As ‘instaurações’ queriam se propor a alguma coisa dessa ordem, a algo que tivesse um caráter superior", afirma ele.

"Se as obras não fossem exatamente assim", diz ele, ao apontar para um conjunto de obras do artista expostas no Itaú Cultural, "não teriam esse caráter, essa força que os materiais exalam hoje".

É um universo que encerra algo de enigmático, em que algo sempre escapa a nós, segundo o curador. "Quando a gente faz uma obra, a gente acha que sabe dela, conhece ela, até o momento em que ela fica pronta", disse Tunga. "No momento em que ela fica pronta, os mistérios dela começam a colocar questões e ela passa a ser algo de oracular, assim como uma floresta onde você há de caminhar e se colocar questões que só nessa presença a floresta doa."

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