Terceira via nunca foi tão improvável, nem tão necessária

1 mês atrás 33

Pouco a pouco vão se afunilando as escolhas para a candidatura de terceira via, essa última esperança de que o Brasil escape da dicotomia Lula e Bolsonaro em 2022. Mas por que ser contra essas duas candidaturas?

De Bolsonaro não é preciso falar muito, já que o estamos vivendo: o misto de incompetência e má fé a que estamos submetidos há quase três anos lançou o país num clima de bagunça constante no qual tudo se deteriora: educação, meio ambiente, saúde pública (sem esquecer a conduta criminosa na pandemia), economia, relações internacionais. Em todas as áreas, o retrocesso é palpável. Bolsonaro é bom em criar ruído e desviar o foco; em todo o resto, é um desastre. Sem falar nos insuportáveis ataques à democracia.

Quanto a Lula, ele chega montado na mesma máquina de guerra petista que deu início a retórica do ódio político no Brasil (mais tarde aperfeiçoada pelo bolsonarismo) enquanto capitaneava os maiores escândalos de corrupção da nossa história. No discurso hoje dominante no PT, mensalão e petrolão nunca existiram, Venezuela e Nicarágua são exemplos de democracia e a prioridade no Brasil deveriam ser o controle social da mídia e o combate ao neoliberalismo.

Além dos motivos que depõem contra os dois, o debate político brasileiro se beneficiaria da quebra da lógica da polarização que piora a cada ciclo eleitoral. 2022 promete ser ainda pior que 2018. Promover um segundo turno diferente de Lula x Bolsonaro já arejaria o debate.

O problema está na matemática. De acordo com a pesquisa mais recente (PoderData, 22 a 24 de novembro), a soma das intenções de voto de todos os candidatos da terceira via dá algo próximo da intenção de voto de Bolsonaro. Portanto, qualquer que seja o escolhido da terceira via, ele terá que não apenas concentrar grande parte desses votos hoje dispersos como também conquistar eleitores novos.

Para essa conquista ocorrer, há duas possibilidades: tirar votos de Lula ou de Bolsonaro. No momento, Lula parece solidamente estabelecido. E, como não está no poder, não deve ser prejudicado por uma possível deterioração econômica do país ao longo do ano que vem. Bolsonaro, sim: se o Brasil for mal, ele pagará o preço em popularidade, o que pode beneficiar candidatos mais à direita, como Moro e Doria.

Uma centro-direita que reafirme bandeiras como combate à corrupção e modernização econômica pode crescer frente a um governo que abandonou suas pautas originais para se entregar de corpo e alma ao fisiologismo mais descarado que se tem notícia, no qual centrão e orçamento secreto dão as cartas do jogo. Ademais, com a rejeição elevada do presidente, em algum momento até o mais ardoroso bolsonarista vai se perguntar se é uma boa ideia votar nele no primeiro turno para entregar a vitória de bandeja a Lula.

Quanto ao primeiro ponto —a redução do número de candidatos—, o ideal seria que Moro, Ciro e Doria não concorressem ao mesmo tempo. No entanto, abrir mão da candidatura em nome da terceira via parece fora de questão para pelo menos dois deles (Doria e Ciro). Moro é o que parte de uma intenção de votos mais alta e que mais potencial tem de tirar votos de Bolsonaro, mas é também o mais cru politicamente. Resta esperar que os eleitores elejam um vencedor e esvaziem as outras candidaturas. A meta é louvável, mas não nos enganemos: os ventos sopram contra.

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