Ter um filho LGBTQIA+

1 mês atrás 26

O desejo de parecer descolado e o medo de ser cancelado fazem as pessoas suarem frio quando confrontadas com temas como religião, racismo, orientação sexual, desigualdade social, gênero. A paranoia é justificada por duas razões. Uma diz respeito aos nossos inúmeros pontos cegos frutos de nossa formação. Outra tem a ver com os “chicotinhos do mundo”, sujeitos cujo prazer se resume a apontar a escorregada alheia, criando uma cortina de fumaça sobre as próprias.

Se ignorarmos por um momento aqueles entre nós que se orgulham de sua incivilidade e tosquice —não precisamos citar nomes—, teremos um número considerável de pessoas que busca honestamente estar apto a acolher os filhos em qualquer circunstância, principalmente relacionadas à sexualidade.

Como se comportam, então, quando confirmam o fato de que o camelo da sexualidade humana não cabe no buraco da agulha cisheteronormativa? Como reagem quando se dão conta de que o/a filho/a é LGBTQIA+?

Reações humanas são sempre diversas mas, entre pessoas abertas e sensíveis, gostaria de apontar algumas experiências de estranhamento. Ou ainda, do estranhamento do estranhamento.

São pais, mães, avós, irmãos, tios amorosos e respeitosos, cientes de que reduzir os sujeitos ao espectro sexual inventado pela modernidade —como apresenta Thomas Laqueur em “Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos à Freud” (2001)— é tosco. Ainda assim, longe de serem preconceituosos, podem sentir um certo desconcerto diante da confirmação de que filhos e filhas são homossexuais, ou não binários, enfim, siga-se as letras do alfabeto.

Estranham a descoberta e estranham sua própria estranheza, uma vez que se consideravam preparados para o que viesse. Mas se sairmos da falaciosa dicotomia que separa pessoas “resolvidas” dos reles mortais, veremos que é impossível não projetar em filhos, netos, sobrinhos nossas fantasias, muitas vezes, inconscientes.

Por mais bizarro que possa vir a parecer no futuro, ainda estamos inseridos numa lógica heteronormativa e a parentalidade se funda no caldo de cultura de cada época. A questão não é termos expectativas mais ou menos anacrônicas em relação aos filhos, pois elas fazem parte, mas da possibilidade de fazer o luto dessas expectativas. Essa é a grande questão da parentalidade.

Que os filhos casem ou não, que estudem ou trabalhem, que tenham filhos ou não, que amem meninos ou meninas, que tenham uma religião ou sejam ateus, todos temos alguma aposta a ser retificada ou simplesmente frustrada. E eles também!

Isso explica a hesitação de muitos jovens em “sair do armário” mesmo em famílias cujo amor está acima de qualquer suspeita e cuja capacidade de lidar com o inesperado é conhecida. Trata-se de assumir-se desejante (e, por vezes, adulto) diante dos pais e outros familiares, mas também de confrontar expectativas inconscientes neles mesmos.

Estranhamos nosso estranhamento porque tomamos por garantido que o amor nos faria aptos a lidar com qualquer surpresa. Mas esquecemos que mesmo boas surpresas requerem um tempo de adaptação.

Além disso, vivemos numa época na qual a segurança de jovens fora do espectro artificialmente imposto pelo patriarcado é realmente preocupante. E isso não passa despercebido para as pessoas que mais os amam. Por isso os jovens precisam encontrar em casa o apoio que muito provavelmente não encontrarão na rua.

Recomendo o recém lançado livro de Renan Quinalha sobre a perseguição impune da comunidade LGBTQIA+ na ditadura. Isso, infelizmente, nem todo mundo estranha.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte