'Senhorita Else' é fluxo de pensamentos delicioso de ler

1 mês atrás 37

O leitor desta coluna de resenhas que me perdoe, mas às vezes cometo a indelicadeza de indicar livros antigos, esgotados, do tipo que você deve encontrar somente em um sebo por mais de R$ 100.

Acontece que, no meu percurso de estudante de psicanálise, tive de ler "Senhorita Else", de Arthur Schnitzler, e fiquei absolutamente encantada pela bela Else, uma jovem inteligente e neurótica de 19 anos que foi compelida pela mãe, mediante uma carta repulsivamente cínica, a seduzir um homem mais velho por dinheiro a fim de evitar que o seu pai devedor fosse preso.

Ganhei de um gentil analista a edição de 1985 da editora carioca Paz e Terra, com tradução de Marijane Lisboa. No conselho editorial, nomes como Antonio Candido e Fernando Henrique Cardoso.

A obra é de 1924, uma época em que, como sabemos, não bastava a uma mulher ser brilhante para prosperar financeiramente e ser dona da sua história. O único bom negócio para as senhoritas que não tiveram a sorte de nascer abastadas era se manter recatadas (frear a libido) para arranjar um bom casamento.

Else tem uma tia rica, que cuida dela tal qual uma doente, e é rodeada de homens casados e velhos endinheirados que a desejam. Mas o que ela quer? Através de sua mente ágil, genial, moderna e sarcástica, fica claro que a moça gostaria de ser livre, trabalhar, estudar, ter muito dinheiro e amantes e poder desfrutar do sexo e do amor sem conectá-los a uma espécie de serviço: "uma licenciosa eu posso ser, mas não uma puta". E ela sabe que poderia "ir longe na vida" se a sua condição de mulher não fosse por si um obstáculo.

Assim como no romance "O Amante", de Marguerite Duras (um dos mais lindos e marcantes que já li), a protagonista reconhece todos os indicativos da prostituição. Então por que, em meio a tanta culpa, nojo e pensamentos obsessivos, se sente atraída por aquele homem e por aquela situação? Talvez porque seja menos sujo e mais prazeroso mostrar seu corpo a alguém que de fato a quer, a enxerga e gosta do que vê (a ponto de pagar por isso) do que se submeter a pais que a ignoram e que, muito provavelmente, jamais a desejaram como filha. Ser vendida talvez doa ainda mais do que ser comprada.

Else paga um preço alto por confessar, a si mesma e a nós leitores, que sonha com a morte do pai, que não suporta os rapazes "bonzinhos" pois não são sedutores e que cobiça os carinhos de um parente que é casado. Se ainda hoje recalcamos nossas fantasias e adoecemos por isso, imagine o que não aconteceria com uma jovem da década de 1920? Alerta de spoiler: somos levados, através de um fluxo de pensamentos deliciosos e bastante ousados para a época, a um belo e teatral surto histérico.

Arthur Schnitzler, que somente após a morte do pai pôde largar a psiquiatria e se dedicar apenas à literatura (não à toa escreve sobre mulheres histéricas impelidas a reprimir seus desejos), era considerado por Freud "o seu duplo". Freud acreditava que todo homem teria uma espécie de escritor dentro de si, uma figura criativa e melancólica, que lidaria com a verdade do fim, com a certeza da morte, algo que todos nós carregamos como um fardo a ser disfarçado.

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