Reino Unido publica guia de amparo a atletas que querem engravidar

1 mês atrás 21

Se você conhece alguma mulher que ficou completamente tranquila ao contar para o chefe que estava grávida, ao mesmo tempo em que construía a carreira, me apresente. As histórias que vejo estão bem longe do tal sonho da maternidade.

Já ouvi relatos de quem teve receio de ser considerada sem ambição profissional; foi citada em uma reunião na frente de todo mundo como mau exemplo; foi demitida depois da licença-maternidade. As autônomas precisam trabalhar o mais rápido possível. Muitas adiam e algumas desistem de ser mães. Nada disso é surpresa e se você nunca ouviu casos como esses, é só ter a curiosidade de perguntar.

No esporte, a pressão é maior. A carreira é curta. Planejar a vida familiar de acordo com ciclos olímpicos faz a margem de erro ser mínima. Com medo de perder contratos, atletas escondem a gravidez ou voltam a competir antes do tempo, aumentando o risco de lesão.

Mas esta semana, o UK Sport, órgão do governo britânico que coordena o esporte no Reino Unido, publicou algo inédito: um guia sobre gravidez para atletas e organizações.

As recomendações focam no bem-estar e na carreira das futuras mães. O nível de detalhes impressiona. O documento orienta quando dar a notícia –o ideal é o quanto antes– e como federações e clubes devem reagir e planejar treinos, competições e viagens. Gestores devem criar um ambiente acolhedor até a amamentação e reduzir riscos: o local de treinamento é muito quente ou frio? Ela pode cair, vai ficar horas em pé, levantar peso demais? Tem banheiro perto?

Também ensina a não excluir a atleta na reta final da gravidez: se não puder treinar, dá para assistir, ir a reuniões? Fala da importância de metas de performance pós-parto, mas sem pressão exagerada que afete a saúde física e mental. Tem lista de sites, aplicativos, podcasts e livros educativos e programas de apoio do governo.

Além disso, atletas que recebem apoio financeiro através do UK Sport vão ter direito ao benefício até nove meses depois do nascimento do bebê. Os autores lembram que o guia deve ser adaptado de acordo com a modalidade e tipo de gravidez e não se limita a esportes olímpicos e paralímpicos (gestores, fica a dica: tudo está no site deles).

A publicação é um avanço e ao mesmo tempo escancara como há um atraso na forma de lidar com o assunto e o quão pouco se fala sobre isso.

Patrocinadores e clubes ainda reduzem ou suspendem contratos com atletas que engravidam, passando a mensagem errada de que, se elas têm filhos, valem menos.

Estrelas do esporte têm sido a voz das que não são ouvidas. No Brasil, Tandara foi pioneira ao conseguir na Justiça direitos trabalhistas ligados à maternidade. Nos Estados Unidos, a velocista Allyson Felix comprou briga com a patrocinadora que quis reduzir seu salário e denunciou uma cultura do silêncio no atletismo: "Ficou grávida? Esconda." Graças à coragem dela, outras atletas compartilharam suas histórias e a empresa melhorou as práticas.

Depois de ter uma filha, Felix ganhou um ouro e um bronze nos Jogos de Tóquio. Com onze medalhas, ultrapassou Carl Lewis e é a atleta olímpica mais vitoriosa da história do atletismo norte-americano.

Mulheres podem ser mães e ter sucesso profissional. É injusto punir e colocar o ônus da decisão de ter um filho sobre elas. Nesse sentido, atletas que lutam por esses direitos talvez estejam deixando um legado ainda maior do que suas brilhantes carreiras.

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