Por que o jeans justo não morreu com o rock e segue em alta no país do sertanejo

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Houve um tempo em que calça apertada era sinônimo de rebeldia e desbunde. Jeans justo foi sinônimo de Iggy Pop, Rolling Stones, Sex Pistols e mais tarde dos Strokes e dos saudosos emos. Mas, desde que o rock morreu, o modelo skinny vem recebendo bombardeios vindos de diferentes fronts.

Adotado pela Faria Lima e pelo Jardim Europa, virou motivo de chacota pela direita bolsonarista, principalmente depois que João Doria se arrependeu da aliança política que fez em 2018. O tucano se manteve firme na calça justa e transformou o xingamento em slogan.

Por outro lado, as gerações mais novas têm sido vistas como uma ameaça ao jeans chamado skinny. O argumento que corre é que os Zs estariam se deixando influenciar por pop stars mais simpáticos às calças largas. Algumas publicações de moda vêm insistindo que o modelo já era —subiriam ao palco outros estrangeirismos, como "wide leg", "mom", "baggy".

Segundo pesquisa do NPD Group divulgada em uma reportagem do New York Times, as calças de modelo skinny representavam 41% das vendas de jeans no início do ano passado nos Estados Unidos. Passados 12 meses, essa fatia caiu para 34%.

"Quatro anos atrás, fui a uma feira de varejo em Amsterdã focada em jeanswear. E era tudo 100% algodão, tudo modelagem mais larga", conta Silvana Eva, gerente de marketing da Lycra. "Eu levei um susto. Falei ‘gente, e agora, o que vai acontecer?’", lembra. O susto era justificável, afinal o ganha-pão dela vem de uma empresa que tem como principal produto o elastano, que por sua vez não tem muita razão de ser num mundo sem calças justas.

No Brasil, porém, há indícios de que estamos em outra rota —a preferência pela calça apertada aumentou, de acordo com um estudo encomendado pela Lycra. Em 2018, 46% das brasileiras ouvidas pela pesquisa afirmaram ter preferência pela calça skinny. Em 2021, o número aumentou para 61%.

A mesma pesquisa perguntou aos brasileiros, tanto mulheres quanto homens, qual parte do corpo eles gostariam de realçar com o jeans. A preferência nacional não só se confirmou como se intensificou. No estudo deste ano, 28% disseram buscar valorizar a bunda —em 2018 eram 22%. Em seguida, vem o desejo por destacar as pernas, com 20%. Os brasileiros também demonstraram desejo de realçar, com a calça, a cintura (11%) e o quadril (6%).

Mas então isso quer dizer que a moda do jeans largo não pegou no Brasil? "Pegou, mas não pegou na escala que todo mundo achava que ia pegar", afirma Silvana Eva.

"Falou-se sobre o fim do skinny várias vezes. Tem matérias de 2014 falando da morte da skinny —e aí não veio a morte da skinny", diz Dario Caldas, sociólogo especializado em tendências.

Na alta moda, vindos de latitudes mais altas, vêm vindo vetores lutando contra a calça colada e suas adjacências. "De um tempo para cá, essas últimas coleções de moda masculina, por exemplo, como JW Anderson e Balenciaga, têm umas coisas que são quase um bolo de noiva, muito bufantes, muito pano", diz Caldas.

Entre Iggy Pop e Billie Eilish, a calça apertada teve altos e baixos. Uma recente onda veio junto com a virada do milênio, depois de uma década de panos em excesso. "A skinny também tem a ver com uma estética lá do comecinho dos anos 2000, associada aos millennials", diz Caldas. Um dos grandes artífices dessa silhueta nos anos 2000 foi Hedi Slimane, na Dior, além de Stella McCartney. Também foi na década de 2000 o revival dos Stooges, que não sobreviveram aos anos 2010, diferente da skinny.

De qualquer forma, de Kate Moss aos Strokes, esse início de século foi uma época que idealizou um corpo muito magro, difícil de manter para grande parte das pessoas. "A skinny era uma espécie de tradução do desejo por esse modelo de corpo vigente nos últimos 20 anos", diz o sociólogo.

"Esses últimos dois anos, porém, são o momento em que a geração Z assume a frente do palco. E eles chegam com uma atitude de se contrapor aos millennials —é algo que vai bem além da calça skinny, na verdade", diz Caldas.

"É uma geração que vem com esse recado da tolerância, da diversidade, a tendência body positive, todos os corpos são possíveis. Os Zs têm um problema muito sério com um padrão único, um padrão de magreza."

Mas também é uma geração que trouxe dados demográficos curiosos. "Que a roupa mais justa seja mais sexy, acho que está todo o mundo mais ou menos de acordo quanto a isso", arrisca Caldas. "E a primeira coisa que esses modelos mais amplos fazem é esconder as formas do corpo."

"Pedindo vênia, como fazem os advogados, acho que isso [moda da calça larga] em princípio tem a ver com uma libido adormecida da geração Z, que é algo que já está virando célebre, já está virando objeto de estudo por aí afora", comenta o sociólogo.

Estudos recentes apontam que entre jovens americanos e britânicos, a frequência das relações sexuais tem caído nos últimos anos. De acordo com pesquisa dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, por exemplo, a taxa de alunos do ensino médio americano que já fizeram sexo foi de 54,1%, em 1991, para 41,2%, em 2015.

Já no Brasil, apesar de estudos do gênero serem mais escassos, dados indicam que aqui se perde a virgindade mais cedo. O país ficou em primeiro lugar no ranking do The Face of Global Sex, de 2012, conduzido pela marca de camisinhas Durex em 37 países, que elencou os lugares onde se perde a virgindade mais cedo —por volta dos 17 anos.

"Não acho que a skinny está acabando, é um modelo que caiu no gosto das brasileiras", diz Iolanda Wutzl, do Guia Jeanswear. Segundo ela, estamos presenciando a ascensão dos modelos largos, o que não implica a morte da skinny. ​

Wutzl conta que, um pouco antes da pandemia, abriu um marketplace somente de jeans skinny sob medida, feitos com a tecnologia T400, que dá mais elasticidade ao tecido. Com o tempo, porém, os consumidores começaram a questionar "ué, só tem skinny?" e demandar outros recortes de jeans.

"Chegou num ponto em que a gente teve que mudar a ideia do marketplace", diz. Hoje o skinny representa 50% das vendas de Wutzl, ou seja, ainda segue sendo o modelo que atrai mais interesse dos consumidores. "A skinny continua sendo a peça chave", diz. "Mas nasceram outras novidades."

"A consumidora brasileira em geral ainda tem a cultura de usar peças justas ao corpo", diz Silvana Eva, da Lycra, que afirma que esses modelos mais largos "têm um nicho, é um público mais jovem e de classe social um pouco mais alta".

Esses jovens mais endinheirados, concorda Eva, acabam sendo mais influenciados por referências vindas de fora —e não é possível deixar a cultura pop de fora dessa equação.

Nos Estados Unidos, segundo dados compilados pela agência DataFace, o rock chegou a representar 60% dos singles da Billboard Hot 100 nos anos 1980, época em que Iggy Pop, Michael Jackson e Sting requebravam nos palcos vestindo calças justas.

Em 2020, o rock foi praticamente varrido da lista, hoje dominada pelo rap e por um pop que bebe bastante da fonte da cultura hip-hop. Em 2021, apesar de Lil Nas X ter vestido uma calça que, de tão apertada, rasgou no meio de uma apresentação, o modelo skinny está longe de ser hegemonia na cultura pop ianque.

No Brasil, o estilo musical que domina as listas das mais tocadas no Spotify é o sertanejo, seguido pelo funk, de acordo com um levantamento feito pelo G1 no ano passado. É pacificado que o sertanejo não tem grandes afinidades com calças largonas —basta pensar em Gusttavo Lima ou Zezé di Camargo, sinônimos de calça apertada.

Funk e roupas largas não são mutuamente excludentes, há até uma certa sintonia. "No funk, existe tanto calça larga quanto apertado para os meninos", diz a stylist Fernanda "CorreRua" Souza, especializada em moda funk. "Mas no geral, você vai ver mulheres usando calça mais apertada", diz.

Os modelos variam entre a skinny tradicional e a flare, também conhecida pelos mais velhos como boca de sino. "Tem menina que usa roupa larga? Tem. Quem gosta de usar conjunto da Cyclone, por exemplo, porque ele é feito para ser usado largo."

Mas o funk tem uma longa história com a calça justa. Um exemplo é a calça Gang, que virou febre no Rio de Janeiro do início dos anos 2000 e chegou a virar música. "Calça da Gang/ toda mulher quer/ duzentos reais/ pra deixar a bunda em pé", cantava o autor do funk "Calça da Gang".

"Sem querer eu acabei criando um dos grandes jingles da história", conta Maurício Carneiro, o DJ Saddam, autor da música. "A calça da Gang era um fenômeno. Ela era muito popular entre as funkeiras. Era usada tanto pelas patricinhas da zona sul quanto pelas meninas que frequentavam baile funk de comunidade. Até o É o Tchan regravou 'Calça da Gang', as duas Sheilas usavam, dizem até que a Britney Spears usou."

A música surgiu na festa Caldeirão, que acontecia todas as quintas-feiras no El Turf da Gávea, que reunia a playboyzada da zona sul, mas também muita gente do morro do Cantagalo, diz Saddam. "Na época era um fenômeno, foi a festa que abriu as portas do funk para a zona sul."

"Essas calças justas nunca saíram de moda. Hoje em dia tem aquela calça skinny, até homem usa. O que eu não tenho visto mais é a cintura baixa", diz o músico.

E atualmente, se há alguma peça desafiando o reinado da skinny, não é a "wide leg" nem a "mom" nem a Billie Eilish. "Olha, hoje eu acho que o shortinho se sobrepôs à calça no baile funk."

Hoje, quase dez anos depois que o criador da calça Gang morreu, a marca não existe mais. Em 2011, para acalmar os ânimos das viúvas desse mundo da já morta Gang, Tati Quebra-Barraco pôs à venda 1.200 calças jeans da grife e montou um brechó num campinho de futebol na Cidade de Deus. Cada peça custava R$ 100, segundo contou a artista a Leo Dias na época.

O tempo passou, mas as calças de Quebra-Barraco seguem apertadas. Para seu último clipe, "É Por Isso que Sofre", lançado na semana passada, a funkeira escolheu um jeans skinny, só que dessa vez é um Versace estampado.

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