Plateia ganha se ver que 'Tectônicas' trata antes de mais nada do teatro

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"Tectônicas", peça de Samir Yazbek, funciona; a tensão se estabelece, robusta, constante. Os confrontos entre os personagens que vão surgindo se sustentam, prendem a atenção, e os papéis se desenvolvem, sob a direção de ator de Marcelo Lazzaratto.

Quase todos, pelo menos. Um segundo filho do protagonista, numa trama paralela, de sonho ou memória, não chega a dizer a que veio, por exemplo. Mas outros crescem e alcançam grau elevado de empatia, rejeição ou ambas.

O caso mais flagrante talvez seja o do pequeno papel de Patrícia Gasppar, uma amante. Com poucas deixas às quais se agarrar, ganha forma e vida cantando velhas músicas de Roberto Carlos, com voz machucada como as letras suicidas.

O protagonista construído por André Garolli é aquele mais torturado, acuado por um fantasma, da trama paralela, a ex-mulher que o mantém preso em aparente remorso, interpretada por Sandra Corveloni.

Garolli aproveita do personagem, que na casca não parece ir além de um usineiro-vilão de telenovela, a angústia que toma conta de tudo à volta. Com violência desmedida, descontrole e sem qualquer motivação além do que está rodando em sua cabeça.

A atual mulher, em atuação contida e emocionante de Luciana Carnielli, é tomada pelo redemoinho, assim como um amigo do casal —Heitor Golflus—, ambos perdendo pelo caminho uma chance de escaparem juntos.

O mesmo acontece, inusitadamente, com as duas figuras que surgem em cenas gravadas, com projeções gigantescas em preto e branco, escancarando as atuações de Ademir Emboava e Alexandre Borges.

Um degrau abaixo, mas também com seus momentos, vêm a filha do protagonista e seu namorado, papéis de Maria Laura Nogueira e Sydney Santiago Kuanza, que começam como Romeu e Julieta e depois se degradam, como tudo.

São diálogos e figuras que envolvem, mas presos numa moldura maniqueísta, a do usineiro de novela, que não dá conta da complexidade de seus diferentes quadros "prêt-à-porter" —como aqueles de Antunes Filho, professor de Yazbek.

Não costura suas "placas tectônicas", a metáfora científica apresentada na trama paralela —aliás, perdida entre narrar com distanciamento e se misturar à história.

A metáfora do título parece reconhecer, em primeiro lugar, a dificuldade em juntar personagens e cenas fortes demais. Com isso, na encenação de Lazzaratto, cenários e figurinos também se apresentam postiços, artificiais.

O espectador só tem a ganhar se aceita que "Tectônicas" trata antes de mais nada do teatro, não de alguma questão social importante, mas externa. Afinal, a peça viu sua chegada ao palco adiada por um ano e meio. Pode ser apreciada e festejada como teatro, ponto.

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