Paulo Freire continua perigoso por ensinar esperança

1 mês atrás 14

Era 1999. Tinha 17 anos e me voluntariei para ajudar num curso de alfabetização de jovens e adultos na favela do Flamengo, em São Paulo. Íamos em grupo para a sala improvisada no quintal da casa de uma líder comunitária. Nos primeiros encontros apareciam duas ou três pessoas, mas aos poucos a comunidade foi acreditando no projeto.

No começo, os educandos acharam um pouco estranho um curso onde os professores se juntavam a eles para que falassem de suas vidas —de onde vêm as palavras geradoras. Explicamos que tal jeito de ensinar era de um pernambucano chamado Paulo Freire. A turma foi se envolvendo, conversando com vizinhos e dali a pouco não havia espaço no quintal.

Ver aquelas pessoas não só descobrindo o mundo encantador das palavras mas aprendendo a ler seu próprio mundo de outra forma foi uma das experiências mais emocionantes que vivi. Novos horizontes se abriam a partir de suas histórias de vida, fazendo a humilhação dar lugar à autoestima; a submissão, ao pensamento crítico. Naquele quintal decidi que seria professor.

Na saída de um dos encontros, uma senhora abordou nosso grupo para agradecer, dizendo que seu marido —que "fugia do banco da escola igual o diabo foge da cruz"— agora não via a hora de chegar o sábado para participar da aula. Dissemos a ela que o que o cativou não fomos nós, mas o método de Paulo Freire. "Então agradeça a esse Seu Paulo", respondeu.

Não é difícil entender por que Freire desperta ódio e, sobretudo, medo em quem quer um povo calado. Sua pedagogia valoriza a experiência dos que sempre foram pisoteados. Recupera o saber onde a sociedade só vê ignorância. Dá protagonismo a quem foi treinado a só obedecer. Revela que nenhuma opressão é natural e que nada é impossível de mudar. É uma educação para a liberdade.

Seu método dialógico mostra que ninguém é detentor do saber absoluto. O educador aprende ao ensinar e o educando ensina ao aprender. A educação é um ato de amor, porque envolve troca. Isso é uma punhalada na lógica de uma sociedade que naturaliza a desigualdade e a opressão. Por isso Seu Paulo é tão perigoso. Por isso foi perseguido e exilado pela ditadura militar e é hoje atacado violentamente pelos bolsonaristas, os mesmos que dizem que a universidade não pode ser para todos ou que o Brasil tem professores demais.

Além de uma pedagogia revolucionária, reconhecida em todo o mundo, Paulo Freire nos legou um verbo: esperançar. Dizia que a esperança de que precisamos não vem de "esperar", passivo e quieto. Vem de "esperançar", daqueles que sonham com um mundo melhor e agem para que se realize. O Brasil, mais que nunca, precisa esperançar. Precisa de Paulo Freire.

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