Patricia Hill Collins me ensinou a não rebater falácias

1 semana atrás 15

Em março de 2016, eu tive a oportunidade de dividir uma mesa de debates com a intelectual feminista negra Patricia Hill Collins em São Paulo. Foi um momento muito importante pra mim, pois as obras dela foram e são fundamentais referências bibliográficas, e aprendi muito naquela ocasião.

Já nos encontramos várias vezes desde então, porém um momento profundamente marcante foi logo após essa mesa de debates em 2016, quando ela me convidou para tomar um vinho.

Fomos até a Casa das Rosas e tive a oportunidade de ter uma conversa mais íntima. Contei sobre a minha vida, minhas aflições de um divórcio recente, as dificuldades enfrentadas durante o período da graduação e do mestrado.

Tudo fluía numa energia incrível, eu realmente estava comovida por ver que Collins se interessava pela minha vida para além da questão acadêmica; parecia um sonho poder desvelar meus sentimentos para uma mulher por quem eu nutria admiração e respeito.

Num dado momento, eu comentei sobre os ataques que sofria nas redes sociais, do quanto a branquitude acrítica brasileira se ressentia após a implementação das políticas de cotas e a expansão das universidades públicas e rebaixava o debate racial por puro ressentimento. Naquele momento cresciam as discussões nas redes sociais e nós, pessoas negras conscientes, precisávamos lidar com um show de desonestidade intelectual e falácias de todo tipo.

Contei a ela o quanto a desonestidade me exacerbava, que eu respondia a muitos desses ataques e perguntei como ela lidava com essas questões. Pacientemente ela me disse que nos Estados Unidos não era diferente, que precisou enfrentar muita hostilidade quando passou a teorizar sobre feminismo negro e o quanto foi duro em muitos momentos da sua trajetória.

Porém, ela continuou; por ser uma mulher na faixa dos 70 anos, havia aprendido a olhar para essas situações sem se abalar ao longo da vida. E disse que eu deveria fazer o mesmo. Collins contou que faz parte do patriarcado racista a manutenção dos privilégios e ataques a tudo o que minimamente desestabilizar esse sistema; que não havia novidade alguma nisso. E completou com uma frase que levo para a vida: “let them talk, Djamila”, “deixe-os falar”.

“Tudo o que eles querem é tirar o nosso foco, imagina se eu ficasse perdendo tempo respondendo a desonestidades na minha vida? Eu não teria produzido, publicado tantos livros, pautado certos debates. Quando a gente responde a falácias, eles seguem pautando o que a gente diz. Concentre-se nas suas reflexões críticas, no quanto você pode contribuir para o debate sério. Djamila, deixe-os falar”, continuou.

Ela seguiu explicando que algumas vezes devemos, sim, responder, sobretudo quando há honestidade no debate e não tentativa de rebaixamento do pensamento crítico como forma de distração. Essa conversa nunca mais saiu da minha cabeça.

No ano seguinte, eu lancei meu primeiro livro e passei a publicar uma série de autoras e autores negros pela coleção Feminismos Plurais e pelo selo Sueli Carneiro —atualmente já temos 14 livros contando com nossa primeira tradução, o imprescindível “Black Power - A Política de Libertação nos EUA”, de Kuame Ture e Charles Hamilton.

Todos os meus livros foram traduzidos para o francês, há edições de “Lugar de Fala” em espanhol e italiano e trabalhamos pela internacionalização da Feminismos Plurais com vários títulos traduzidos.
Collins tinha razão, e tive a oportunidade de dizer isso a ela quando novamente dividimos uma mesa, em 2018, num evento literário em Cachoeira, na Bahia —evento esse que reuniu milhares de pessoas.

Por que conto tudo isso? Porque não é novidade alguma o ressentimento da branquitude acrítica, algo que faz com que verdadeiros absurdos sejam escritos sob o manto da “discordância de ideias”, mas que são tão somente falácias, ou seja, querem impor aquilo que se quer provar. Pessoas que não leram sobre um tema se julgando no direito de teorizar, quem sempre pôde falar batendo o pé como criança birrenta e tentando chamar a atenção.

Se fosse um debate honesto, com discordâncias legítimas, valeria a pena o empenho em estabelecer um diálogo. Porém, como se trata de birra, grosseria, desonestidade, pra que perder tempo e energia? Para que dar palco para quem dorme nos braços do ostracismo?

Mais uma vez, não tem nada de novo nessas estratégias, é o mau e velho patriarcado racista rugindo, ou como me disse Grada Kilomba, também num encontro marcante em 2016, são as vozes do passado falando —“não perca tempo dialogando com as vozes do passado”.

Tem tanta gente boa sobre quem se falar, tantos livros incríveis esperando para ser lidos ou publicados. “Let them talk.” A gente tem muito mais o que fazer.

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