Mortes: Perseguido na ditadura, foi defensor de presos políticos

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Ao contrário da sonoridade do sobrenome, Fernando era o Tristão mais alegre do mundo. A afirmação pertence a um de seus filhos, o advogado Fernando Augusto Fernandes.

“Ele era humanista, atencioso com as pessoas, preocupado com a democracia, de responsabilidade política na construção do Estado democrático de Direito, uma forma difícil para um homem moderno. Eles são de uma época em que o nacionalismo e a construção do país eram próprios da geração”, afirma Fernandes.

Fernando nasceu em Linhares (ES) e em 1950 casou-se com a mineira Zulka Fernandes. De Minas Gerais foi para a Bahia e depois viveu no Paraná, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo —dos quatro filhos, um é baiano, dois são paranaenses e um sul-mato-grossense.

Fernando Tristão Fernandes escreveu uma história bonita e cheia de superações. No Paraná, estudou direito e economia e, por 62 anos, trabalhou como advogado.

Assim, em 2018, foi agraciado com a medalha de Sobral Pinto, uma homenagem aos advogados que exercem a profissão por mais de 50 anos, concedida pela OAB do Rio de Janeiro.

Atuante na defesa das pessoas perseguidas pela ditadura militar, foi também uma vítima do autoritarismo —ele próprio foi preso político no Paraná, onde fundou a Federação dos Bancários.

“Quando deu o golpe de 1964, ele era bancário, funcionário do Banco do Brasil, presidente da Federação dos Bancários, começou a advogar para presos políticos, mas rapidamente foi preso. Permaneceu alguns meses e foi solto por uma ordem de habeas corpus no STM [Superior Tribunal Militar] e foi confinado político em Ponta Porã (MS). Lá, passou a se dedicar exclusivamente à advocacia e política”, conta o filho.

Em 1979, antes da anistia, Tristão resistiu a um atentado contra a sua vida. Levou 17 tiros. Depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estabeleceu residência definitiva.

Tristão tinha três diversões: ficar com a família, leitura e trabalho. Era um leitor voraz de jornais e gostava também de literatura brasileira e mundial —“O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, era o livro predileto, mas a lista de preferências tinha um espaço especial reservado a Jorge Amado.

Dizia constantemente aos filhos que o trabalho é uma diversão. Dedicar-se à família e ao trabalho foi a sua marca.

“O legado principal dele é a responsabilidade social com o país, uma formação cultural exemplar. Extrapola a advocacia no momento em que exerce isto com uma militância política e democrática constante, seja no direito criminal, no trabalhista. Marca o seu legado uma preocupação constante pela construção dos direitos individuais, coletivos e sociais”, afirma o filho.

Fernando Tristão Fernandes morreu dia 18 de setembro, aos 94 anos, por complicações de um AVC. Deixa a esposa, com quem estava casado há 72 anos, quatro filhos, sete netos e quatro bisnetos.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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