Meu segundo emprego é no GTA

1 mês atrás 24

Aaron W. Boseman, 23 anos, é um policial em ascensão. Ele começa seu dia com uma ronda de rotina, acompanhado de amigos, enquanto mais tarde vai participar de um treinamento da nova leva de cadetes da academia. O detalhe mais curioso é que Aaron não existe, ele é um avatar controlado por Wellington Silva, de 33 anos, no mundo real – dentro do que chamamos de GTA RP, uma espécie de “Second Life da geração Z”, que usa como base o sucesso de GTA Online, da Rockstar.

Como já explicamos aqui, o GTA RP é, basicamente, um mod de GTA 5 para PC que transforma o jogo em um RPG online. A sigla “RP” vem de “Role play”, ou interpretação de papeis, como é também no RPG clássico. Existem vários servidores no mundo todo, inclusive no Brasil, onde jogadores se reúnem e vivem uma espécie de vida completa, com direito a empregos, tarefas, relações sociais e, claro, crimes.

Porém, diferente de MMORPGs que não “obrigam” o jogador a interpretar, aqui tudo é levado à risca. Dependendo do servidor as regras podem ser mais rígidas ou mais soltas, mas sempre com o objetivo de manter todos os usuários no personagem em 100% do tempo, para criar imersão e simulação.

Em GTA RP você vive sua segunda vida (Imagem: Felipe Vinha/Tecnoblog)

Neste especial vou além de explicar somente o que é o GTA RP, mas também explorar o universo criado por jogadores, sem qualquer envolvimento – ou até mesmo autorização – da Rockstar. Como um jogo de 2013 ainda se mantém relevante e ativo graças à sua comunidade, atraindo até mesmo empresas sérias e gigantescas para anúncios personalizados. O que não é bem uma novidade, mas tem seus grandes méritos.

A vida de Wellington

Welington Silva trabalha com entretenimento e artes. Cosplayer profissional, Well, como também é chamado, ganhou fama quando resolveu se fantasiar de Pantera Negra, um dos grandes heróis dos cinemas no Marvel Studios. Isso lhe deu um enorme destaque, já que ele fez questão de se montar com uma proposital semelhança física com o ator Chadwick Boseman, que interpretou o personagem nas telonas.

Cosplayer desde 2015, foi em 2018 que ele viu as coisas decolarem, depois de deixar seu emprego em um restaurante. Foi aí que resolveu se dedicar ao cosplay do herói da Marvel, participando de eventos como atração convidada, jurado, festas e até mesmo ganhando prêmios em suas apresentações como Pantera Negra.

Well é cosplayer e ficou famoso com sua versão do herói Pantera Negra (Imagem: Arquivo Pessoal)

Well também é gamer desde infância, começando pelo Telejogo. Jogava com seu pai e irmão, o que levou para toda a vida. Com a pandemia de 2020, ele resolveu começar a transmitir suas partidas no Instagram com o PS4, filmando a tela, para depois montar um PC gamer, migrar para a Twitch, e expandir suas opções de streaming.

Jogador de GTA desde sua primeira versão, Well tomou conhecimento do GTA RP com uma amiga, que também faz lives na Twitch. Logo ele pesquisou, aprendeu e resolveu participar. O cosplayer é um cidadão da Cidade Alta, servidor de RP da Loud, uma das principais marcas de games e esportes eletrônicos entre os jovens no Brasil, atualmente. Fundada em 2019 pelo influenciador Bruno “PlayHard”, a Loud já está presente até nos esportes reais, marcas de roupa e música.

O Cidade Alta foi lançado pela Loud em fevereiro de 2020. Não demorou muito para que ele também conquistasse audiência e público enorme. Para entrar é preciso se cadastrar quando a chamada “whitelist” é aberta, de tempos em tempos, e depois passar por uma entrevista em várias etapas – como se fosse um emprego na vida real. Hoje o servidor do Discord deles, por onde as pessoas iniciam o processo de entrada, conta com 236 mil usuários, entre participantes ativos e aqueles que estão esperando abrir a próxima whitelist.

Foi por este processo que Well passou para entrar na Cidade Alta. Ele começou em um servidor secundário e logo foi promovido para a “cidade principal”. O mais curioso, porém, é que Well é um policial oficial dentro do game. Ele precisa cumprir ordens, horários mínimos de trabalho durante a semana, seguir uma extensa cartilha e guias da profissão, entre outros. É como se fosse um trabalho, que rende dinheiro no mundo virtual e nada no real – apenas diversão e conteúdo para suas lives na Twitch.

Aaron Boseman em operação no Cidade Alta (Imagem: Acervo Pessoal)

“Tem algumas profissões básicas, que são policial, médico, mecânico… Mas dá pra ser meio que de tudo. Tem um pessoal que é atendente de lanchonete. E você precisa trabalhar direitinho, como se fosse na vida real”, comentou Well, em conversa comigo. “Quando fiz minha whitelist demorou muito pra ser aprovado. Foram mais de 10 mil formulários e mais de 9 mil pessoas aprovadas, imagina selecionar cada uma delas. No meu teste já viram que eu queria ser policial. Depois que passei, fiz o teste e comecei na profissão”, complementou,

Well, ou Aaron no servidor, começou já definindo qual personagem queria ser. Escreveu sua história prévia e apresentou aos entrevistadores. “Meu personagem nunca quis ser policial, pois não queria aproveitar dos benefícios do meu pai, que era major. Até que o pai morreu e ele quis se tornar um policial para honrar a família”, contou.

Quando entrou e foi aprovado, teve que ler uma enorme cartilha, código penal (sério, escrito nos mínimos detalhes!) e testar todos os equipamentos corretamente antes de começar a atuar como cadete, para depois seguir a carreira e evoluir de cargo, o que já aconteceu.

E não pense que o trabalho de policial é fácil ou meramente ilustrativo. Quando uma pessoa é presa ela é revistada, tem que ser identificada, tem código penal dentro do jogo e é necessário seguir à risca. O jogo já vai calcular quanto tempo você vai ficar, como por exemplo 30 meses, que é equivalente a 30 minutos dentro do game. Dependendo do agravamento do crime você pode aumentar ou diminuir essa pena. Tudo pode entrar como agravante, se for réu primário tem desconto da pena. Depois que o jogador é preso ele fica na prisão, com a roupa de prisioneiro, e deve cumprir os 30 minutos.

Aaron em uma batida dentro do Cidade Alta (Imagem: Acervo Pessoal)

Profissão: influenciador de servidor

Como Well explicou, este detalhe das profissões varia bastante. Cada servidor tem uma lista pré-determinada de profissões, mas cada um pode ser o que bem entender. No Cidade Alta, por exemplo, os jogadores podem escolher entre policial, médico ou mecânico. Cada uma garante um salário, fictício, que soma dinheiro na sua conta a cada um tanto de minutos – o policial recebe, por exemplo, R$ 4 mil a cada meia hora. Quem quiser pode escolher outras tarefas, que não são oficiais do servidor mas que também rendem dinheiro. O jogador pode ser até fora da lei, se envolver com crimes e se especializar em assaltos a bancos, por exemplo.

Mas normalmente são todas profissões que não rendem dinheiro no mundo real, até porque isso seria complicado de monitorar ou organizar. Contudo, há aqueles que jogam por dinheiro real, os influenciadores dos servidores. Eles são como jogadores comuns, fazem tudo que os jogadores comuns fazem, mas são contratados pelas organizações para promover o servidor entre os fãs, para que mais pessoas entrem na whitelist e tentem se cadastrar para ter uma chance de jogar.

É o caso, por exemplo, de Alessandra Tramontini, ou Ale Maze, de 26 anos. Antiga apresentadora e narradora de torneios de Free Fire, ela é contratada pela organização Fluxo e também joga no Complexo, servidor da mesma empresa, que foi lançado agorinha, no final de agosto de 2021. Ale joga Free Fire há três anos e começou a fazer transmissões ao vivo há dois. No GTA RP ela chegou a menos tempo, mas já se diverte bastante.

Ale Maze é influenciadora do Fluxo e joga GTA RP no Complexo (Imagem: Cesar Galeao)

“Como sou nova no RP a galera ri muito de algumas trapalhadas que eu faço, quando dou fuga da polícia”, comentou a influenciadora. Sua personagem, Agatha, vive a vida do crime na cidade onde joga, junto com outras amigas. “Quando sou pega eu fico nervosa! E eu tô aprendendo ainda, junto com meu público, já que todo mundo vem de outro jogo, o Free Fire, mas a galera se diverte e ri comigo”, complementou a influenciadora.

Já Tássio “Santi” Rafael, de 27 anos, faz do Cidade Alta seu lar virtual no GTA RP. Lá ele é conhecido como Raed Hadi Santi, um policial de 46 anos que é um dos mais respeitados do servidor e também lida com problemas familiares, de vez em quando. O mais interessante é que Raed tem uma história que se originou em “outras cidades”, segundo seu criador.

Santi joga GTA Online há sete anos e passou por outros servidores desde quando descobriu o GTA RP. Sua esposa dentro do jogo, Paty Landim na vida real, é também uma das gerentes do Cidade Alta. “Quando comecei com o Raed ele tinha 37 anos. Passei por vários servidores, ou cidades como a gente chama no jogo, mas só trabalho há dois anos como influenciador”, disse Santi.

Em transmissões online ele joga até 10 horas por dia, por conta das metas que tem que cumprir na plataforma, a Nimo.tv neste caso, e também pela carga horária que seu emprego de policial na Cidade Alta exige. Mesmo fora do jogo ele toma seu tempo com o servidor, cuidando de planilhas ou atendendo chamados que surgem pela demanda de outros jogadores. “Tenho uma planilha com 220 operadores, que são outros policiais, cada um é um player único”, disse.

O Complexo em ambiente noturno (Imagem: Fluxo/Divulgação)

O que Santi e Ale Maze têm em comum é que são influenciadores com tarefas reais dentro e fora de seus servidores. Já jogadores como Well podem jogar apenas por jogar, seguindo suas profissões, mas também são livres para monetizar o game a partir de transmissões em plataformas diversas, como a Twitch. Por outro lado, os servidores precisam de estrutura, planejamento e principalmente dinheiro para manter tudo funcionando. E aí entramos no lado de negócios do GTA RP.

A brincadeira do dinheiro

O GTA RP explodiu no Brasil no final de 2019. De lá para cá vários servidores nacionais foram criados, mas, em sua maioria, eles são pequenos e suportam poucas pessoas – normalmente 30 usuários, o mesmo número de jogadores do GTA Online padrão, sem modificações.

Todos os servidores se baseiam no FiveM, que é um programa que modifica o GTA no computador do usuário, permitindo jogar em canais privados. Então para aproveitar o RP é preciso ter o GTA original comprado e instalado, seja no Steam ou Epic Games Store, e também instalar o FiveM, que existe desde 2016, diga-se de passagem, ainda que só tenha recebido uma certa fama muito tempo depois.

GTA RP funciona tendo o FiveM como base (Imagem: Felipe Vinha/Tecnoblog)

Isso não quer dizer que a brincadeira seja menos séria. Cidade Alta e Complexo são organizados por empresas qualificadas e já com um grande catálogo e cases de sucesso no mercado de game, especialmente de influenciadores. Só no YouTube a Loud conta com mais de 12 milhões de inscritos. No Instagram são 11 milhões de seguidores. Nobru, considerado o principal jogador do Fluxo, fatura R$ 2 milhões por mês somente em transmissões no seu canal da Twitch, descontando outras fontes de renda, como patrocínios e campeonatos. Outros números costumam ser restritos, mas são empresas que possuem pessoas preparadas e experientes – não por um acaso são um sucesso.

Por isso que Cidade Alta e Complexo não querem apenas atrair jogadores, mas parceiros comerciais. Como o Complexo abriu agora, existem poucos – apenas lojas com roupas e uniformes do Fluxo e também um prédio inteiro do Banco do Brasil, mas Lucas Xavier, o “Fulano”, revela que tem planos de implementar mais conteúdo patrocinado por lá.

Fulano é sócio-proprietário do Complexo e também um dos influenciadores do Fluxo. Ele explica que o Complexo foi lançado após um planejamento de seis meses, depois de testarem versões do servidores para 32, 64 e 128 pessoas. Há ainda uma grande estrutura de proteção contra ataques virtuais, para manter tudo perfeito e sem problemas para quem joga, com suporte 24 horas. Hoje a cidade conta com capacidade para 1024 usuários, que é o máximo para um canal de GTA RP.

O Complexo mal nasceu e já é uma cidade populosa (Imagem: Fluxo/Divulgação)

Para tal, parcerias serão desenvolvidas, das mais criativas possíveis. Com o Banco do Brasil, por exemplo, o prédio especial dentro da cidade funciona realmente como um banco. Os jogadores podem trabalhar lá, fazer distribuição de dinheiro pelos caixas eletrônicos, reposição de cédula, transporte de valores com carro forte do BB. A simulação é realmente lavada a sério e vai além da mera propaganda.

O Banco do Brasil também promove as Stream Battle dentro do Complexo. É uma ação no estilo “reality show”, transmitida na cidade, para escolher um streamer profissional para o banco. Além disso, parcerias com celebridades que são ou não gamers também estão nos planos ou em desenvolvimento. O DJ Henrique de Ferraz, com 1 milhão de seguidores no Instagram, é um dos que aproveita seu tempo por lá. O lançamento do servidor contou ainda com show do MC Poze.

De forma parecida funciona o Cidade Alta. Parcerias com marcas e grandes nomes da cultura pop estão no pacote. A cantora Anitta, que hoje em dia é sucesso internacional, tem uma personagem bem famosa no servidor. Brahma Duplo Malte tem um bar temático, o Tinder desenvolveu uma versão especial do aplicativo para os jogadores da cidade, o Submarino acabou de inaugurar uma loja virtual, um canal de vendas dentro do jogo e disponível 24 horas por dia, com descontos exclusivos, a Jeep lançou um carro oficialmente na cidade, que pode ser alugado ou comprado por seus moradores.

Submarino é uma das empresas que está oficialmente no Cidade Alta (Imagem: Felipe Vinha/Tecnoblog)

O Cidade Alta tem mais de 700 influenciadores ativos trabalhando na plataforma, justamente por estar em funcionamento há mais de um ano. Isso tudo nasceu do esforço conjunto da Loud e da Outplay, empresa que administra o servidor. De acordo com seu diretor e co-fundador, Paulo Benetti nem foi tão alto assim, quando comparado a outros projetos – algo entre R$ 15 mil a R$ 20 mil. A motivação foi de realmente trazer algo parecido com Second Life, como citei no início da matéria.

“Entramos em contato com o servidor Up, que já existia, e com a Loud, para fazer a parceria. No começo era uma coisa pequena, não era nada ambicioso. Éramos apenas três sócios, cada um em uma posição – administração, suporte e desenvolvimento. Hoje temos 44 colaboradores”, contou Benetti. É no Cidade Alta que também há uma maior concentração de celebridades que chamam a atenção para o game. Além da já citada Anitta o servidor conta e contou com os humoristas Diogo Defante e Eduardo Sterblitch, o jogador Gabriel Jesus e o cantor Kevinho.

Além de parcerias comerciais, também há eventos sociais e causas nobres. “Tivemos uma parada LGBTQIA+, em parceria com o Facebook, sem fins lucrativos”, lembrou o executivo, comentando ainda que foi uma iniciativa muito bem aceita, mostrando que os jogadores de GTA RP estão dispostos a abandonar preconceito, em comparação a outros gamers e públicos.

Até o Tinder está em GTA RP (Imagem: Felipe Vinha/Tecnoblog)

Para o futuro, Benetti diz que há um plano de fazer o Cidade Alta render dinheiro real para seus jogadores. O servidor tem um sistema de monetização já ativo, que vende esmeraldas, uma espécie de moeda premium e passes VIP. Mas, futuramente, o executivo diz que quer criar um mercado de itens oficiais, que cada jogador possa vender o seu in-game e ganhar dinheiro na vida real.

O que diz a Rockstar?

O assunto “Rockstar” e “Take-Two”, as duas empresas responsáveis pela série Grand Theft Auto, parece ser proibido ou sensível entre criadores e administradores de servidores do GTA RP. Os envolvidos com o Complexo sequer quiseram entrar no mérito, informando previamente que este tópico não poderia ser tratado durante nossas entrevistas.

Oficialmente a Rockstar não reconhece o RP como uma modificação válida. A empresa nem menciona nada a respeito em seus canais oficiais e só fala do GTA Online padrão, presente em todas as plataformas.

Em 2017 um tópico nos fóruns de suporte técnico da Rockstar questionava se modificações como o FiveM, para servidores privados, eram permitidas pela empresa. Naquela época havia um posicionamento nos termos de uso de GTA 5 dizendo que não, mas o posicionamento mudou pouco tempo depois. A produtora, porém, mantém silêncio direto a respeito do RP, possivelmente para não se complicar legalmente com muitos fãs e criadores.

Rockstar não reconhece o RP, apenas o oficial GTA Online, com várias atualizações (Imagem: Rockstar/Divulgação)

O Cidade Alta comentou o caso quando conversei com eles. Paulo Benetti alega que a parceria oficial do servidor é com o FiveM e não com a Rockstar, mas que o plano é usar a cidade como uma vitrine para produtos, elementos e ocasiões no mundo real. “O FiveM é licenciado e tem diversas regras que temos seguir. Mas do nosso lado, com o Cidade Alta, queremos trazer os eventos pra vida real, não ficar refém do GTA 5. O plano é trabalhar mais com as pessoas em eventos físicos e festas ano que vem, ou assim que for possível. Criar restaurantes que existem no game, mas na vida real. Nosso maior desafio é não ficar refém da Rockstar”, apontou.

Imagina que sua empresa investiu dinheiro pesado e tem uma equipe de pessoas contratadas para cuidar de um servidor de GTA RP e, da noite para o dia, a Rockstar decide perseguir estas iniciativas e encerrar cada uma delas. É um risco que se corre, mas as companhias responsáveis parecem cientes disso e com planos para ocasiões futuras.

Mas vale sempre lembrar: não existem só estes dois.

No mundo são milhares de canais para o GTA RP. No Brasil há muitos outros. Alguns deles são:

  • Ribeirão Pires RolePlay (120 participantes máximos)
  • Brasil Capital (1 mil participantes máximos)
  • Complexo (1024 participantes máximos)
  • Cidade Alta (1024 participantes máximos)
  • Cidade dos Anjos (64 participantes máximos)
  • Cidade Divina (500 participantes máximos)
  • NoWay Evolution (1024 participantes máximos)
  • Pixel Evoltuon (300 participantes máximos)
  • Cidade Santa RP (800 participantes máximos)

Um rolê na cidade

É claro que eu não ia ficar de fora e testar de perto o que significa ter uma verdadeira segunda vida dentro de um jogo moderno. Tanto Complexo quanto Cidade Alta me concederam acesso e foi uma experiência, no mínimo, curiosa, mas com toda a certeza muito interessante.

Li páginas e mais páginas de regras de ambos os servidores. Instruções de comandos básicos, como se comportar perante outros jogadores, entre outras obrigações. Alguns servidores são mais flexíveis e aceitam que você use o termo “mentalizar” para mencionar comandos ou elementos do mundo real – por exemplo, um jogador explicar para o outro “para você entrar no caso mentalize a tecla F”. No Cidade Alta isso não é permitido, a regra lá é muitíssimo rígida e sair do RP de qualquer maneira é passível de punição, ou até de expulsão permanente.

A jornada no GTA RP começa com o passaporte e no aeroporto (Imagem: Felipe Vinha/Tecnoblog)

Assim que cheguei ao aeroporto do Cidade Alta, por exemplo, fiquei confuso com os controles. Chamei um táxi para me levar ao centro, mas chutei a porta do táxi em vez de abrir. De quebra, agredi um outro personagem que eu não conhecia, e que estava próximo, ao pressionar vários botões ao mesmo tempo. Tudo sem querer, mas tudo dentro das regras. Disse que a viagem havia me feito mal, por ter sido longa, e que por isso estava fora de mim naquela ocasião.

É mais engraçado mostrar do que contar…

Pouco tempo depois comecei a me acostumar mais com toda a situação. Nos primeiros momentos é necessário comprar um celular. Lá tem o Altagram e Altazap, alternativas ao Instagram e WhatsApp, que funcionam exatamente como seus equivalentes reais. O Tinder, como já falei, já vem instalado no celular. Logo você tira uma selfie e publica nas redes sociais ou no seu perfil do aplicativo de relacionamento.

Mais tarde encontrei Aaron, que entrevistei no início desta matéria, que me guiou por toda a cidade, mostrando mais algumas regras e ensinando como viver por lá – tudo seguindo a interpretação do RP. Aluguei um carro da Jeep, fui no píer comer uma pizza, comprei um novo casaco pois o meu havia rasgado durante a viagem – na verdade, um bug visual o mostrava rasgado.

Meu personagem, Felipe Parker, é um jornalista que veio do “interior” e quer um emprego na cidade grande. A próxima missão seria visitar o prédio da Alta News, a emissora local, e tentar uma entrevista para conseguir um emprego, já que o dinheiro não é infinito e em algum momento vai acabar.

Aaron Boseman também me dá as dicas de sobrevivência. Ensina três pontos do mapa que são as favelas. “Jamais entre ali, a não ser que esteja acompanhado de morador”, disse. De uma forma triste, o game imita partes mais lamentáveis da nossa vida, ainda que no ambiente virtual tudo seja de mentirinha e quem vive na favela está lá por opção.

Boseman e Parker em Cidade Alta (Imagem: Felipe Vinha/Tecnoblog)

O dia finalizou depois de um longo passeio e a vida do meu quase jornalista renomado da Cidade Alta. As regras são bem-vindas, já que a imersão é realmente boa. Você se sente parte daquilo e a linha entre real e virtual fica borrada, já que você conversa diretamente com as pessoas, usando o chat de voz a partir do Team Speak. Também tive um ligeiro contato com o chamado “dark RP”, que é o termo usado quando alguém faz insinuações sexuais ou têm relações, de fato. Alguns servidores têm regras para e contra o “dark”, incluindo a proibição de transmitir publicamente os atos.

E é assim, com elementos que misturam o real com o fantástico de maneira bem natural, o RP conquista cada vez mais adeptos para um ambiente virtual longe de redes sociais dependentes de algoritmos e também distante de empresas produtoras de jogos online, servindo como ponte para algo maior no futuro e também como vitrine para que influenciadores mostrem um pouco da sua vida, mesmo que de mentirinha.

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