Hunfa-hunfa, glug-glug

1 semana atrás 13

Mistério. Beleza. Pura rocha.

Cavernas milenares trazem encanto ao interior do país.

E, de modo geral, nunca incomodaram ninguém.

Surge a medida polêmica.

O governo Bolsonaro libera a destruição de qualquer tipo de caverna.

Ambientalistas protestam.

Em Brasília, o general Perácio suspirava.

–Esse pessoal não fica contente nunca.

Espécies animais poderão sofrer se forem arrasadas as cavernas do Brasil.

–Ué. Antes, diziam que a gente não cuidava da pandemia…

O assessor Guarany concordava.

–Verdade, general.

–Agora, que a gente quer atacar a raiz do problema…

–Como assim, general?

–Não dizem que o vírus veio do morcego?

–Positivo, general.

–Então. Onde é que o morcego mora?

O rosto de Guarany iluminou-se como uma lanterna de campanha.

–Nas cavernas…

A admiração do assessor não tinha limites.

–Acho que o general é até mais inteligente que o professor Olavo.

–Haha, não precisa exagerar.

Veio a ideia.

–Isso pode até dar voto para a gente.

–Isso o quê, general?

–Acabar com as cavernas. E com os morcegos.

Foi convocada uma equipe de filmagem oficial.

Perácio, em pessoa, desceu de cordinha na famosa Caverna dos Candelabros.

Uma delicada obra-prima de puro calcário goiano.

No fundo de um salão, a surpresa.

Um grupo humano tentava se aquecer em torno de uma fogueira.

Guarany tentava definir o fenômeno.

–Nossa… um povo de ogroditas?

–É troglodita, cretino. Gente da idade da pedra.

O grupo estava vestido em farrapos de pele animal.

–Hunfa, hunfa. Glug-glug.

Era difícil a comunicação.

Chegando mais perto, Perácio teve a surpresa.

–Pazuello? Você aqui?

–Ronk, ronk… bambula.

Logo ele julgou reconhecer outros ex-ministros.

–Salles? Araújo? Weintraub?

Os vultos agitavam porretes numa dança primitiva.

–Buka-buka! Chonga-chonga.

A atmosfera se fazia irreal.

O general Perácio desmaiou sobre o chão de formações rochosas.

Em Brasília, a equipe médica atribui tudo à falta de oxigenação.

Cavernas são destruídas.

Mas o povo de lá de dentro resiste bravamente.

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