Fim de ano e variante ômicron pintam quadro sinistro na África, diz diretora regional da OMS

1 mês atrás 27

A diretora regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) na África, Matshidiso Moeti, expressou preocupação com a situação epidemiológica do continente em meio ao avanço da variante ômicron.

"Com as viagens e festividades de fim de ano chegando, a vacinação limitada, o aumento de casos de Covid-19 e a nova variante pintam um quadro sinistro para a nossa região", disse a sul-africana, durante uma entrevista coletiva nesta quinta-feira (9) em que a entidade apresentou novos dados sobre o coronavírus na África.

Desde a identificação da variante ômicron, sequenciada pela primeira vez na África do Sul, o continente africano tem sido alvo de atenção internacional devido aos baixos índices de imunização.

Segundo relatório do escritório regional da OMS divulgado nesta quinta, a África recebeu até agora mais de 372 milhões de doses, as quais aplicou 248 milhões (66%). Embora o ritmo de vacinação tenha aumentado nos últimos meses, apenas 7,8% da população africana está totalmente vacinada. Do total de 8,2 bilhões de doses dos imunizantes administrados em todo o mundo, só 3% foram aplicados na África.

Ainda de acordo com os dados da OMS África, os casos de Covid-19 quase dobraram nos países africanos na semana que terminou no último dia 5. Foram registrados 107 mil novas infecções nesse período —93% a mais que as 55 mil confirmadas na semana anterior.

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Faltam evidências científicas para determinar qual o peso da variante ômicron nesse aumento de casos, mas, atualmente, segundo a OMS, a África contabiliza 46% dos quase mil casos da nova cepa identificados em 57 países em todo o mundo.

Apesar disso, o comunicado da entidade descreve como "sinais de esperança" os dados preliminares que apontam baixo nível de hospitalizações na África do Sul.

Entre 14 de novembro e 4 de dezembro, a taxa de ocupação de leitos de UTI no país foi de 6,3%, o que é considerado muito baixo em comparação com o período em que a África do Sul enfrentava os picos provocados pela variante delta, em julho.

Segundo a OMS, dados de um dos distritos sul-africanos mais impactados pela ômicron mostram que, dos mais de 1.200 pacientes internados com Covid-19, 98 estavam recebendo oxigênio suplementar e apenas 4 dependiam de ventilação mecânica.

A entidade, no entanto, faz a ressalva de que esta é uma amostra pequena e que a maioria das pessoas admitidas nas unidades de saúde analisadas no levantamento tinha menos de 40 anos. Ou seja, ainda é cedo para tirar conclusões. "À medida que o perfil clínico dos pacientes muda, o impacto da ômicron pode mudar", diz a OMS.

No comunicado, Moeti voltou a criticar as restrições de viagens impostas aos países do continente. Os dados apontam que, até agora, dez países africanos notificaram casos da nova cepa, mas mesmo nações em que não foi confirmada nenhuma infecção pela ômicron tornaram-se alvos do banimento.

"Com a ômicron agora presente em quase 60 países em todo o mundo, as proibições de viagens que visam principalmente os países africanos são difíceis de justificar", disse Moeti. A diretora reforçou ainda que, embora a mutação tenha sido identificada pela primeira vez na África, "não está claro se a transmissão estava ocorrendo silenciosamente em outras regiões".

"O que sabemos é que a distribuição desigual de vacinas contra a Covid-19 em todo o mundo está criando um ambiente ideal para as variantes emergirem e se espalharem de forma explosiva. E as regiões com menos acesso às vacinas parecem ser as que mais sofrem", acrescentou.

No mesmo evento, o ruandês Richard Mihigo, coordenador do programa de imunização da OMS África, também expressou preocupação com o lento avanço da vacinação no continente. "Apenas seis dos 54 países da África alcançaram a meta global de vacinar 40% de sua população até o final deste ano, deixando milhões de pessoas em nossa região sem proteção contra a Covid-19. Isso é simplesmente perigoso e insustentável."

Nesta quinta, o diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África, John Nkengasong, disse que os governos de países africanos estão ficando sem escolha a não ser a imposição de regras que tornem a vacinação contra a Covid-19 obrigatória.

Em meio à desigualdade no acesso à imunização aliada a problemas logísticos, o recurso da obrigatoriedade da vacina já foi discutido em outras ocasiões pelo médico camaronês que preside o CDC africano.

Segundo Nkengasong, ainda que a África tenha ficado para trás em termos de distribuição de doses dos imunizantes, a falta de vacinas não é mais uma desculpa, e o principal problema do continente nesse sentido seria a hesitação vacinal.

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