Escolha de Doria impõe ‘divã’ ao PSDB para curar feridas e ganhar fôlego como terceira via em 2022

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O maior adversário de João Doria nunca esteve exatamente entre seus pares, por mais que não lhe faltem desafetos dentro e fora de seu partido. O tucano, agora na versão presidenciável, terá que trabalhar o temperamento egocentrado para juntar os cacos que ele ajudou a espalhar dentro do PSDB. A despeito da bem-sucedida campanha de vacinação que encampou desde o início da pandemia de coronavírus e de números razoavelmente positivos da economia estadual, Doria, com vitória apertada nas prévias, terá a tarefa de reconstituir relações internas que serão encaradas numa espécie de divã pré-eleitoral pelas lideranças de seu partido.

O governador de São Paulo precisará alinhar as expectativas e interesses pessoais ao mesmo tempo em que a sua candidatura se depara com o desafio de virar naturalmente uma terceira via. A interlocutores, logo depois do resultado de que fora vitorioso nas prévias, deu a entender que a busca por apoio dentro do partido deve andar de mãos dadas à desconstrução das imagens do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do atual mandatário, Jair Bolsonaro. Mais que isso, Doria entende que o momento é de atrair para sua campanha nomes que disputam com ele furar a bolha do petismo e do bolsonarismo. Sergio Moro será procurado para uma conversa com Doria na próxima semana, ainda que o ex-juiz já tenha se colocado em campo, com viagem marcada para o Nordeste em janeiro, numa extensão da agenda camuflada de candidato que assumiu há pouco mais de um mês.

O desempenho apertado de Doria nas prévias é atribuído por pessoas próximas à dificuldade que ele encontrou para estabelecer novos aliados ou recompor antigas amizades, que, com o tempo, tornaram-se adversários muito além do fogo amigo. Dois deles ajudaram a colocar lama na areia movediça com que o paulista se deparou ao longo do processo para escolha do presidenciável do partido. Depois do fiasco da primeira eleição, no domingo passado, os ex-governadores de Minas Gerais, Aécio Neves, e de São Paulo, Geraldo Alckmin, reforçaram nos últimos dias o que parece ser uma revisitada política do café com leite, àquela que, durante a Velha República, mostrou a briga entre oligarquias paulista e mineira pelo poder nacional.

Agora numa versão exclusivamente tucana, os ex-governadores tiveram influência direta na forma como Doria atuou desde o início do ano, uma vez que procuraram fazer refluir o poder de Doria no partido e, assim, tentar recuperar o espaço que ambos perderam por diferentes motivos: Aécio foi flagrado pedindo propina de 2 milhões de reais para um empresário, enquanto Alckmin foi responsável pelo pior desempenho do PSDB numa eleição presidencial, em 2018, quando ficou em quarto lugar com cerca de 5% dos votos.

Tanto Aécio quanto Alckmin trabalharam nos bastidores a favor do principal adversário de Doria nas prévias, o governador gaúcho Eduardo Leite. Aécio fez jantares com lideranças, em Brasília e Minas, no intuito de atrair simpatizantes. Seus aliados foram a campo. “Estamos fechados com o Leite”, disse o presidente do diretório do PSDB em Minas, que em fevereiro deste ano reuniu 14 parlamentares em um almoço em torno de Leite, em Porto Alegre. Alckmin, padrinho político de Doria, também formou um time contra seu afilhado. Márcio França (PSB), outro ex-governador de São Paulo, aliou-se a Alckmin nas críticas a Doria. “Há tempos que o Doria não governa o Estado, deixou para o Rodrigo (Garcia, atual vice). O projeto do Doria sempre foi chegar a presidente, mas não consegue uma eleição tranquila nem no seu próprio partido.”

Enquanto isso, o governador de São Paulo procurava personificar-se como uma figura central do PSDB, aumentando dia após dia fissuras num partido que anda distante da polarização para 2022 que se avizinha entre o PT de Lula e Jair Bolsonaro, prestes a ingressar no PL. Diante da estatura política ou eleitoral dos adversários, Doria buscou apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que o recebeu em um jantar regado a água com gás em seu apartamento em Higienópolis. FHC gravou um vídeo de apoio ao governador paulista, não sem antes lembrar que Doria precisaria controlar o temperamento intempestivo para que o partido não se tornasse uma armadilha de suas próprias intenções eleitorais.

O tucano ainda enfrentou a prévia com especulações de uma debandada em massa de correligionários do PSDB. Aécio e Alckmin estariam à frente do movimento dissidente na sigla a partir da vitória de Doria nas prévias. Doria precisou dar garantias de espaço aos aliados num eventual Governo, ainda que as pesquisas de intenção de voto não parecem animadoras em ninho tucano, o que tem feito com que parlamentares avaliem um realinhamento de rota. Levantamento do EL PAÍS divulgado um dia após o fiasco da primeira tentativa de eleição, domingo passado, mostrou que pelo menos 13 dos 33 deputados tucanos pensam em deixar a legenda a partir de abril, quando é aberta a janela partidária, para possivelmente ingressar em partidos do Centrão.

Estudiosos da política nacional falam da importância em estabelecer uma relação partidária sem trincas. “Há uma ideologia em torno do petismo e do bolsonarismo, o que o PSDB perdeu em grande medida ao longo dos últimos anos, e isso não é de responsabilidade do Doria. Mas ele terá que rezar na cartilha e buscar apoio de grupos ligados a figuras com as quais estabeleceu uma relação fratricida”, reitera o analista político Rubens Figueiredo.

Ao mesmo tempo em que suava a camisa polo para ganhar apoio nas prévias, seu entourage trabalhou para aplacar o fogo amigo com o discurso da excelência em gestão, o mesmo que o levou à Prefeitura de São Paulo, em 2016, mas que perdeu simpatizantes com o tempo. Doria precisava de musculatura, principalmente contra Eduardo Leite, que, além de exibir o physique du rôle em suas redes sociais, também alardeava uma política de resultados no Rio Grande do Sul, onde sanou dívidas e colocou em dia o pagamento de servidores públicos. A luta contra a pandemia do coronavírus tornou-se bandeira de Doria para tentar fazer dele o único governador responsável por produzir e distribuir vacina para boa parte dos primeiros brasileiros que conseguiram se imunizar. Nem por isso, deixou de avançar sinais. Um trabalho da Agência Lupa, de verificação de dados, mostrou que a redução no número de mortes por covid-19 em São Paulo ocorreu por causa do represamento de dados, e não por políticas de prevenção.

Se é alvo de fogo amigo por conta de suas decisões, o papel de João Doria na campanha de vacinação contra a covid-19 aparece desde já como sua provável principal plataforma eleitoral. Na contramão do Governo federal, que chegou a negar a necessidade de vacina e pregou contra os protocolos de segurança contra a doença, o Governo de São Paulo atuou fortemente para introduzir o imunizante não só no mercado paulista, mas em todo o território. Quando havia cerca de 20% da população vacinada com a primeira dose, a CoronaVac —produzida em parceria entre a chinesa Sinovac e Instituto Butantan, era responsável por quase a totalidade de imunização naquele período.

O empenho do governador rendeu elogios de opositores. No entanto, uma informação vinda à tona na semana passada mostrou que os próprios tucanos tentaram adiar o início da vacinação pelo Governo de São Paulo. Eduardo Leite admitiu ter conversado com Doria a pedido do Governo federal para adiar o início da campanha, sob pretexto de que se fazia necessária uma mobilização nacional. Doria não recuou e no dia ‘7 de janeiro, num evento acompanhado ao vivo pelas emissoras de TV, o Governo de São Paulo deu o pontapé inicial à campanha que ajudou a diminuir os números da doença.

Mesmo orientado a evitar confrontos, o governador continuava comprando briga com personagens importantes do partido pela disputa ao poder. Autoproclamado “um líder confiável, e não palatável”, como repetiu algumas vezes nas últimas semanas, reconhece a dificuldade de interlocução com parte da legenda. Um tucano do alto escalão disse ao EL PAÍS que será necessário colocar o partido numa terapia em grupo para aplacar os traumas.

Dentro do PSDB, o perfil centralizador criou um ambiente indigesto, e restou ao governador correr ele próprio atrás do prejuízo nos últimos meses enquanto nadava contra uma corrente interna. Doria viajou a 21 Estados, reuniu-se com lideranças locais, cobrou lealdade e prometeu empenho para unir o partido. Ligava ele mesmo para cerca de 30 correligionários por dia.

Corrida por votos

A campanha de Doria acompanhou de perto o humor dos filiados. Um núcleo usou um programa de internet que rastreava declarações públicas na imprensa ou posts em redes sociais de vereadores, deputados, senadores, presidentes de diretórios e várias outras faixas de filiados. Telas de TV com a preferência do eleitor foram espalhadas no bunker do tucano. Em azul, mostravam a preferência por Doria, enquanto bolinhas vermelhas indicavam apoio a Leite. Em alguns casos, ao longo das prévias, as bolas mudaram de cor, indicando migração no apoio de uma candidatura para a outra. “Nosso monitoramento mostra desde o início do processo a vantagem do João (Doria). A vitória dele não seria surpresa”, diz Daniel Braga, responsável pelo marketing digital da campanha de Doria.

As estatísticas apontadas no programa de rastreamento indicavam que a briga interna com Eduardo Leite não seria fácil. O humor oscilava, ora a favor de Doria, ora positivamente para o gaúcho. “O João (Doria) fez questão de conversar pessoalmente com muita gente”, diz Marco Vinholi, coordenador de campanha do governador paulista

A agenda de Doria era definida com base na coleta dessas informações, as quais balizavam o mapa de viagens do governador-candidato. Foi num desses encontros, ocorrido no sertão da Paraíba, que Doria discorreu sobre o progresso nos Emirados Árabes. E perguntou: “Alguém aqui já foi a Dubai?”. A sala foi tomada por risadas. Assim que o vídeo viralizou, Doria disse que a pergunta estava inserida num contexto. “Ele é assim, e vai continuar sendo. Doria às vezes parece viver não só fora do ninho tucano, mas em outra dimensão mesmo”, diz um deputado estadual tucano.

A disputa por votos provocou insinuações de que a tesouraria do PSDB havia entrado no jogo. Aliado de Aécio, o deputado estadual Gustavo Valadares (PSDB-MG) publicou no Twitter a informação de que o tesoureiro nacional do partido, César Gontijo, esteve em Belo Horizonte para “pressionar prefeitos que tiveram acesso ao fundo eleitoral em 2020 e cobrando apoio a Doria”. Gontijo não foi encontrado para comentar.

O Estado de São Paulo, embora represente 62% de todos os mais de 1 milhão de filiados registrados no partido (apenas 29.300 votaram), não oferece ainda uma estrada totalmente pavimentada para Doria. O imbróglio no berço tucano acontece justamente com Alckmin no centro do debate. O ex-governador tem intenção de ter seu nome aprovado pelo partido para disputar o Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo paulista, ano que vem. Doria, no entanto, trabalhou para que seu vice, Rodrigo Garcia, deixasse o DEM e, ao ingressar no PSDB, assumisse a corrida à sua sucessão. Na disputa, Doria saiu ganhando e o PSDB confirmou a candidatura de Garcia.

Ao tirar Alckmin da eleição paulista, pelo menos dentro do PSDB, Doria condensou ainda mais os problemas internos. Alckmin tem dito a lideranças que poderá deixar o partido para disputar o posto que já ocupou, ao mesmo tempo em que mantém conversas informais sobre a possibilidade de ser vice na chapa encabeçada por Lula, o que a direção do PSDB tenta evitar. Para isso, dependeria de um realinhamento político pouco provável entre o padrinho e o afilhado. Um ex-secretário do governo paulista hoje influente na Assembleia Legislativa faz um diagnóstico sobre os embaraços impostos ao PSDB nesse processo. “O Alckmin não tem interesse em disputar uma vaga no Congresso, e as conversas no sentido de uma aliança com o PT ainda estão no campo da especulação. Se ele decidir concorrer ao Governo de SP por outro partido, o PSDB perde em força justamente no seu berço político”, diz.

Daqui em diante, Doria seguirá em duas frentes. Além de manter as viagens para angariar o apoio de quem esteve ao lado de Leite, pretende se colocar no espaço ainda esvaziado da terceira via. Para isso, manterá principalmente o embate com Bolsonaro. Assim tem sido nos últimos meses, inclusive com disposição para uma coreografia saltitante no alto de um carro de som numa das manifestações anti-Bolsonaro. Também abraçou publicamente e nas redes sociais os apelidos de “calcinha apertada e coxinha”, como se comum fosse um governante ser tratado dessa maneira até pelo presidente da República. “Ele vai fazer campanha de calça apertada e vai continuar sendo chato”, diz um aliado, lembrando a peça publicitária levada ao ar em que Doria é tido como chato pois cobraria excelência no que faz.

Os tucanos justificaram as prévias como um processo democrático, mas que ao longo do tempo foi contaminada por tentativas dos próprios candidatos de ganhar voto a qualquer preço. Primeiro a tomar um revés foi o próprio Doria. A comissão das prévias do PSDB excluiu o direito ao voto de 92 prefeitos e vice-prefeitos paulistas tidos como próximos de Doria, mas que tiveram filiações contestadas por terem sido feitas foram do prazo limite. Em seguida, foi a vez da campanha do gaúcho ser atingida, enquanto tentava assegurar os votos de outros 34 nomes, que também acabaram foram da eleição pelo mesmo motivo.

Até mesmo o aplicativo de internet que serviria como instrumento de votação foi colocado à prova, criando embaraços para todo o PSDB, enquanto Doria procurava outra saída para a votação. O clima esquentou quando, um dia antes da eleição, um vereador de uma cidade no interior de São Paulo gravou um vídeo mostrando que ele havia conseguido se registrar em nome de um outro filiado escolhido aleatoriamente.

Dias atrás, Doria atacou fortemente o orçamento secreto do Governo Bolsonaro. “Quem manda no orçamento do Governo é o presidente da Câmara. E a gente nunca fez isso na história política do Brasil, exceto agora no Governo Bolsonaro”, disse Doria. O governador, no entanto, também decidiu abrir os cofres e aumentou os repasses de verbas políticas para atender a pedidos de parlamentares. O volume de recursos, considerado inédito entre os políticos, beneficia não só seus aliados na Assembleia Legislativa, mas até mesmo deputados federais. O vínculo de cada parlamentar com as liberações, feitas com recursos públicos, não é divulgado ao público pela gestão tucana. O valor é quase seis vezes o liberado pelo Governo com essa finalidade em todo o ano de 2020 —de aproximadamente 182,9 milhões de reais.

Doria deve permanecer à frente do Palácio dos Bandeirantes até abril do ano que vem, quando terá de deixar o cargo. Até lá, deve manter a rotina frenética de reuniões, visitas, inaugurações e viagens, no papel de governador. Também não abandonará a dieta magra em carboidratos e as aulas de musculação, assim como os polivitamínicos, já apelidados de Vita|D (de Doria, claro), os mesmos que ele distribui para assessores e secretários. O governador de São Paulo entra na corrida à sucessão presidencial com fôlego para uma disputa de 100 metros rasos. Tem pela frente, no entanto, uma corrida quilométrica de obstáculos.

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