Djaimilia Pereira de Almeida escreve sobre desejo de reencontrar a mãe em carta fictícia

1 mês atrás 26

[SOBRE O TEXTO] Esta é a quinta de uma série de cartas fictícias imaginadas por Djaimilia Pereira de Almeida. Elas serão publicadas ao longo do próximo ano aos domingos na Ilustrada Ilustríssima. São obras inspiradas pelo distanciamento provocado pela pandemia de coronavírus e o desejo de proximidade que ele despertou.



Carta de novembro

Minha mãe,

Não nos vemos há tantos anos que já não sei se existes. Trocamos mensagens, mas nunca ouço a tua voz. Não sei se és de verdade se és só uma mensagem de WhatsApp que se escreve sozinha, um robô do outro lado, que me manda corações e orações.

Ando a escrever esta carta há dois meses. Queria convidar-te a passares o Natal connosco, mas imaginar que te vou ver enche-me de medo. Por isso, escrevo e apago. Escrevo e reescrevo.

Queria conservar a tua cara como a imagino, máquina-mulher-dígito, o que me envergonha. E, ao mesmo tempo, afogar-me no teu perfume. Cheirar o teu pescoço como faz um vampiro. Guardar o teu cheiro num frasquinho. Tanto tempo sem ti que minha mãe é minha amada, escondida de nós através de altas montanhas.

Imagino o nosso Natal: duas meninas a bater funge no fogão. Muamba em vez de bacalhau estúpido. O semba nas colunas novas. O teu gingado no nosso corredor longo. A altura em que te retirarás para orar, na noite de Ano-Novo.

Então apago e escrevo de novo isto, Helau, escrevo que venhas ao nosso encontro, lá desde esse longe, nas montanhas Simien ou lá onde dormes, seja onde for, vem Helau aquecer o meu Natal comigo. Vem para eu aquecer o Natal contigo. Poupei dinheiro, dá para o bilhete.

E já sonho a meio da noite, minha mãe, ir até perto de ti e confirmar que respiras, que o sono te é amigo, como mãe vai ver se o bebê dorme bem. Passou tanto tempo, minha Helau, que de amante minha mãe é já minha menina com que sonho para ninar teu sono.

Aceitas, linda? Eu pago o bilhete. Diz o que achas, quando voltarem a ligar a internet aí. Diz se queres vir passar o Natal connosco. Diz depressa, minha mãe.

Aqui te aguardo, a filha que te ama,

Lai


Ilustração de Pedro Neves, artista visual

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