Crítica - Amor, Sublime Amor

1 mês atrás 37

Antigamente diziam que havia dois tipos diferentes de contadores de história vivendo dentro de Steven Spielberg, um dos mais renomados autores cinematográficos dos dias atuais.

De um lado tínhamos o artista que buscava o inimaginável, aquele que surpreendia tantos e mais tantos com visuais que só pareciam ser possíveis em nossas mais mirabolantes fantasias ou sonhos, entregando obras que chocavam, assustavam e encantavam na mesma medida, como por exemplo: Tubarão (1975); Os Caçadores da Arca Perdida (1981); Hook – A Volta do Capitão Gancho (1991); e Jurassic Park – Parque dos Dinossauros (1993), que revolucionou a indústria hollywoodiana introduzindo a tecnologia de uma maneira nunca vista anteriormente.

Agora, por outro lado, observávamos um artista que tratava alguns assuntos com uma destreza admirável, mostrando enorme engenho emparelhado à uma finura que toca profundamente seu público. Foi através do drama de período A Cor Púrpura (1985) que Spielberg começou a explorar temáticas um pouco mais complexas de se levar ao espectador, culminando na enxurrada de prêmios que levou para casa com o sucesso de público e crítica de A Lista de Schindler (1993), obra brutalmente comovente que revelou algumas escolhas narrativas bem questionáveis por parte do diretor de 74 anos de idade.

Apesar do barulho causado em 1993 com dois lançamentos que chamaram muito a atenção geral, podemos afirmar que foi pouco antes da virada do século passado que realmente pudemos testemunhar o desabrochar de Steven Spielberg como o grande cineasta que é atualmente.

Quando lançou O Resgate do Soldado Ryan (1998) analisamos que havia ali um diretor que não só tinha elevado seu conhecimento técnico geral, como alguém começando a questionar certos valores, mostrando a ambivalência como parte essencial de todas as coisas, presenteando-nos com um filme antiguerra, mas repleto de ação intensa, além de visualmente gráfica.

E na virada para o século XXI, vimos um Steven Spielberg mais maduro, que continuou a nos surpreender com alguns trabalhos, como Munique (2005), Lincoln (2012) e Ponte dos Espiões (2015), sendo este último seu projeto mais inspirado da última década.

Portanto, foram-se os tempos onde diziam que Steven Spielberg colocava em prática dois estilos diferentes de cinema, pois hoje é mais do que capaz de traduzir variadas ideias e conceitos, englobando tudo através da linguagem universal da expressão emocional, meditativa e técnica. Sem comprometer qualquer um destes elementos em favor do outro.

Então, não nos admira nem um pouco saber que ele resolveu fazer um remake de Amor Sublime Amor, baseado no musical de 1957 com a música de Leonard Bernstein, letras de Stephen Sondheim e coreografia de Jerome Robbins; que já tinha ganhado uma produção para o cinema em 1961, levando dez (!) estatuetas do Oscar na grande premiação da indústria audiovisual americana.

Pelos sentidos de Spielberg testemunhamos o amor à primeira vista quando o jovem Tony (Ansel Elgort) avista Maria (Rachel Zegler) em um baile na cidade de Nova York. Porém, seu crescente romance ajuda a alimentar o fogo e tensão entre os membros dos Jets e Sharks – duas gangues rivais que disputam o controle das ruas.

Só alguém com o porte de Steven Spielberg poderia assumir a empreitada de recontar o drama romântico musical sobre a relação conflituosa de Tony e Maria, sem gerar tantos burburinhos como é de costume ao escutarmos a notícia de que irão produzir um novo remake de certa produção muito popular ou cultuada mundo afora.

Também não surpreende nem um pouco atestar os talentos do cineasta americano, que mais uma vez trabalhou junto do roteirista Tony Kushner, repetindo a parceria vista nos longas-metragens Munique e Lincoln; do mesmo modo, temos a dupla dinâmica formada pelo diretor de fotografia Janusz Kamiński e o montador Michael Kahn, que estão ao lado de Spielberg desde 1993 e 1977, respectivamente.

Cercado de profissionais talentosos e de confiança, fica aberto o caminho para o consagrado diretor explorar o universo dos musicais, algo inédito em seu vasto currículo.

Pelos dois primeiros atos de Amor Sublime Amor notamos um cineasta focado em desenvolver ‘mise-en-scènes’ que visualmente e sonoramente atraiam o público para a história de amor à la Romeu & Julieta pelas calçadas e janelas de Manhattan.

Além da vibração sonora incandescente, que dispõe de canções clássicas, como “Maria”, “Tonight”, “America” e “I Feel Pretty”, também nos deixamos levar pelos movimentos hipnotizantes do elenco que dança de modo convidativo, mas calorosamente furioso, deixando aquela sensação de quando percebemos algo especial diante nossos olhos: inspirador e inatingível.

Dentro do elenco encontramos alguns destaques que somam pontos para a narrativa cantante de Amor Sublime Amor, sendo a protagonista Maria, interpretada pela estreante Rachel Zegler, uma das grandes e boas surpresas desta adaptação musical.

A jovem atriz e cantora de apenas 20 anos de idade, que começou sua carreira postando vídeos no YouTube cantando covers, possui aquela típica voz de canário que alcança os agudos sem perder o ‘touch’ emocional necessário para estabelecer uma conexão com a audiência; além de portar um carisma natural que facilita nossa proximidade com os fatos e situações que envolvem sua personagem.

Contudo, ninguém em Amor Sublime Amor brilha mais alto e forte que Ariana DeBose, que faz o papel da melhor amiga de Maria. Ela que recentemente fez parte de outro musical, A Festa de Formatura (disponível na plataforma Netflix), mostrou um leque de predicados impressionantes, que encantam tanto na hora de dançar e soltar a voz, como nos momentos dramáticos, destacando-se também com algumas tiradas humorísticas pontuais. Por este trabalho, pode ser que a veremos estrelando alguns tapetes vermelhos na próxima temporada de prêmios que está logo aí!

O único ponto de desequilíbrio no filme de Spielberg veio através da performance do ator/galã Ansel Elgort, que foi bem nos sucessos de bilheteria A Culpa é das Estrelas (2014) e Em Ritmo de Fuga (2017), mas um tanto irregular em Amor Sublime Amor. Ele definitivamente sabe cantar e foi capaz de mostrar agilidade e coordenação motora nos momentos que o enredo pedia isso dele, porém deixou um pouco a desejar no quesito dramático, comportando-se melhor ao lado de sua parceira de cena Rachel Zegler, mas um tanto distante e desarranjado em outras cenas.

Se pelos atos iniciais da obra de Spielberg temos um material exemplar, especialmente nos aspectos técnicos, definitivamente mergulharemos mais fundo na história, pouco antes da segunda virada que abre o caminho para o terceiro ato de Amor Sublime Amor.

Na cena em que o líder do grupo dos Jets vai comprar um artefato com a intenção de ser usado contra a gangue rival dos Sharks, percebemos pelo olhar do cineasta que estes jovens raivosos, na realidade são apenas “crianças” brincando com a própria sobrevivência, achando que o inimigo está lá do outro lado, quando na realidade ele vem de cima, exatamente como as tomadas iniciais do longa-metragem de Steven Spielberg, que exibem um bairro em ruínas, sendo demolido para que se abram os caminhos para um futuro “promissor”.

É neste exato momento que o trabalho do diretor de cinema vai do espetáculo para o espetacular, denunciando uma situação que (ainda) se repete nos dias atuais, onde desalojamos, expulsamos toda uma comunidade com o objetivo de erguer novas construções que refletem um poderio econômico inalcançável para aqueles que se encontram vivendo naquela específica região da cidade.

Se em O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017) de Yorgos Lanthimos, a tomada mais alta representava a divindade; vemos em Amor Sublime Amor isto representar o poder do sistema capital, que oblitera os menores sem remorso algum, apagando o passado, presente e qualquer possibilidade de um futuro mais digno na América, chamada de “terra das oportunidades” por aqueles que sonham e assistem este sonho desaparecer como tudo mais.

Nos momentos finais da adaptação musical observamos Steven Spielberg desavergonhadamente inspirado pelo neorrealismo italiano, movimento cinematográfico que despontou nos anos 1940, caracterizado por histórias sobre a classe trabalhadora, tratando das dificuldades econômicas e sociais na Itália pós-Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), revelando suas condições de vida, enquanto retratavam o desespero, opressão e a desigualdade que enfrentavam.

Entre as ruínas de um mundo prestes a deixar de existir, vemos Steven Spielberg filmar a tragédia humana por olhos compassivos, repetindo Bong Joon-ho no excelente Parasita (2019), retratando um mundo reduzido onde ambas as gangues são impactadas, mesmo porque pertencem à mesma classe social desfavorecida.

Pelo superlativo musical Amor Sublime Amor ficamos atônitos e pensativos, enquanto transitamos entre o solar e o soturno das camadas baixas da sociedade.

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