Crítica: A Mais Pura Verdade ? Minissérie

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Na cerimônia do Oscar de 2016 vimos o apresentador Chris Rock fazer algumas piadas com seu colega comediante Kevin Hart. Na época, questionaram Rock por decidir apresentar o Oscar depois daquela polêmica de não ter nenhum artista negro entre os indicados na categoria de atuação. O apresentador da noite disse que se ele desistisse do cargo, não faria diferença, pois haveriam as premiações anuais do mesmo jeito e que tudo que ele menos queria naquele momento seria perder outro trabalho para Kevin Hart, finalizando com uma piada afirmando que nem atrizes pornôs tinham feito tantos filmes como Hart.

Saindo da boca de Chris Rock era graça, mas tinha muita verdade ali, apesar do exagero na comparação final.

Desde aquela cerimônia no começo de 2016 observamos Kevin Hart envolvido em nada menos que vinte produções (!) em um período de apenas cinco anos. Tudo isso, entre filmes, séries, apresentações especiais em grandes eventos da televisão, documentários e alguns reality shows.

O comediante de apenas 42 anos de idade transformou-se em um grande evento da indústria hollywoodiana. O crescimento foi tanto que Hart, agora, pôde começar a decidir e selecionar melhor alguns projetos que chegam à sua mesa.

Neste ano que se aproxima do fim, já tivemos uma amostra de um novo capítulo em sua carreira. Ainda no primeiro semestre tivemos o lançamento do longa-metragem Paternidade, que mostrava Hart tentando pisar em novo território: o drama.

Apesar de não ter feito tanto sucesso entre críticos ou público, é justo afirmar que o ator/comediante mostrou gabarito para a nova função. Agora, repete a mesma proposta de seu último trabalho, tentando ir ainda mais fundo no drama/suspense A Mais Pura Verdade, nova série de produção original da Netflix, que nos leva para uma noite desastrosa entre Kid (Kevin Hart) e seu irmão Carlton (Wesley Snipes), onde o famoso comediante vê sua vida virar de cabeça para baixo, correndo o risco de perder tudo o que conquistou durante a vida após a morte de uma jovem mulher em um quarto de hotel.

Julgando exclusivamente pela premissa da série A Mais Pura Verdade, podemos dizer que existe algo promissor ali, ao menos no quesito entretenimento, claro.

Tramas de suspense costumam envolver e amarrar o público de uma maneira que estes se sentem cúmplices do que assistem em alguns bem sucedidos e raros momentos. Só que para fazer isso acontecer, é essencial que saibam como montar um cenário de mistério para que o assinante Netflix sinta-se “compelido” em testemunhar os acontecimentos que se desenrolam, mas embaraçam às realidades dos personagens em destaque.

Lamentavelmente, A Mais Pura Verdade perde a chance de colocar isso em prática ainda no primeiro dos sete capítulos dessa minissérie. Em ‘Capítulo 1: O rei da comédia’ notamos algo muito fora do comum na cena chave onde encontram uma moça morta de bruços na cama. Provavelmente o assinante da plataforma que estiver mais ligado irá pegar no ar algo cheirando mal ali.

O criador Eric Newman já deixou a bola cair ainda na introdução dessa história que vai ficar cada vez mais enrolada até o episódio final. Mas a pergunta que se deve fazer é – “De que adianta enganar o espectador usando de ‘plot-twists’ se já reconheceu qual era o grande problema em questão desde o começo?”

Claro que sendo este um roteiro dramático também, existe algo a ser desenvolvido através da dupla de protagonistas de A Mais Pura Verdade, porém de novo Newman cai no mesmo erro, pois nos minutos finais do mesmo episódio citado teremos uma outra morte que entregará quais são as intenções narrativas do material.

Tentaram algo ligeiramente próximo ao cinema de David Cronenberg, mas terminaram escorregando em algumas escolhas que dissolvem qualquer argumento sobre a violência despertada em um homem que se vê pressionado pelo sucesso.

Se Eric Newman não fez sua parte, tirou a sorte grande de contar com um par de atores que entregaram performances elogiáveis. O protagonista Kevin Hart continua a mostrar evolução nessa transição da comédia para o drama, enquanto Wesley Snipes prova mais uma vez ser possuidor de habilidades surpreendentes, que imprimem energia e nuances na mesma medida com enorme naturalidade.

Falando especificamente de Wesley Snipes, que por muito tempo foi visto apenas como um ator de produções do gênero ação, como O Demolidor (1993), U.S. Marshals – Os Federais (1998), Os Mercenários 3 (2014), além de ser o intérprete do personagem-título na trilogia Blade, baseada no super-herói dos quadrinhos da Marvel.

Por ele que nos envolvemos com maior facilidade pela narrativa de A Mais Pura Verdade, uma vez que testemunhamos uma figura capaz de englobar certos elementos, porém só exibe fragmentos destes, estabelecendo um magnetismo de atração e deixando espaço para a curiosidade surgir.

Seu trabalho aqui é tão elevado quanto àquele apresentado em Meu Nome é Dolemite (2019) de Craig Brewer. É bom que Hollywood fique de olho em Snipes, pois ele é muito mais do que os olhos podem ver.

Quando chegamos no ‘Capítulo 7: Como Cain e Abel’, já sabemos qual o território que nos encontramos, até mesmo porque batizaram o episódio usando às figuras bíblicas conhecidas como os irmãos, filhos de Adão e Eva.

Caso conheçam a história narrada no livro de Gênesis, já sabem o que vêm pela frente. Ainda assim, Eric Newman deu um jeito de não seguir as regras como se esperava, tentando outra proposta através do episódio final da minissérie A Mais Pura Verdade. Contudo, apesar da surpresa na última virada do enredo: não foi o suficiente para salvar a produção Netflix.

A entregada de bandeja comprometeu demais as possibilidades de bom entretenimento. Uma pena, óbvio. Resta consolo em imaginar qual será a próxima aventura fílmica de Kevin Hart e se ele continuará nessa levada de tentar algo diferente e mais profundo daqui em diante.

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