Conheça a história de empresários que participaram da série Negócios Plurais

1 mês atrás 24

Há quatro meses no ar, a série Negócios Plurais já contou as histórias de empresários de diferentes regiões do país. O projeto sobre empreendedorismo e diversidade é uma parceria da Folha com o Instagram.

Toda semana, o jornal publica em seu perfil na rede social depoimentos em vídeo de empreendedores, que contam como criaram suas marcas, quais foram as principais dificuldades que encontraram nesse percurso e como têm lidado com os desafios impostos pela pandemia.

Em geral, são profissionais que enfrentaram o preconceito ou a falta de representatividade ao longo da sua trajetória. No comando de seus negócios, eles lutam para quebrar barreiras e incluir mais pessoas no mercado de trabalho.

Veja seis dessas histórias a seguir:



‘Nunca tinham ouvido falar em maquiadora com deficiência’
Maili Santos, 36, maquiadora e fundadora do Studio Móvel Maili Santos, em Salvador (BA)

Eu sempre tive o "não" na minha vida. Então comecei a lutar pelo "sim", sem admitir que ninguém me colocasse para baixo.

Devido a tentativas de aborto da minha genitora, minha medula foi lesionada e parei de andar com 1 ano e 9 meses. Mais velha, fui diagnosticada com depressão.

Anos mais tarde, encontrei alguém em que eu acreditei. Mas quando ele descobriu que eu estava gerando meu primeiro filho, me expulsou de casa.

E retornaram as crises de depressão. No hospital, a médica falou: "Você precisa encontrar algo que ame fazer porque agora tem uma pessoa que depende de você".

Eu me apaixonei por essa coisa de maquiar, de misturar cores. Procurei os profissionais de Salvador para aprender, mas eles nunca tinham ouvido falar de maquiadores com deficiência. Depois que viram que eu não iria parar, me deram a oportunidade de fazer meu primeiro curso.

Então Deus me deu o meu marido, Edilton, que largou a vida dele em prol da minha: pediu as contas do emprego para construirmos o Studio.

Em 2018, ele nos inscreveu em um processo de aceleração. A gente passou cinco dias numa missão empresarial para aprender sobre gestão.

Quando eu vi, estava ao lado de Paulo Rogério Nunes [cofundador da Vale do Dendê, organização de fomento à inovação com foco em diversidade]. Uma coisa que ele sempre deixou clara foi que eu não tinha chegado até ali porque tinham sentido pena da minha condição.

Transformei aquela história triste da menina que foi rejeitada para a história da menina que se transformou com as rejeições.



‘Eu não me enxergava nas revistas e na TV’
Dayana Molina, 33, fundadora da Nalimo

Sou estilista, ativista e mulher indígena. Venho de duas matriarcas, uma avó indígena e a minha bisa, peruana, de origem aimará.

Elas sempre inspiraram o meu processo criativo. Talvez por isso eu empreenda e tenha o desejo de fortalecer outras mulheres.

A gente não se enxerga numa revista e na TV. Essa necessidade pessoal de me ver nesses espaços me fez entender a importância de ter um negócio de valor.

Comecei na garra, com R$ 30. Comprei os tecidos e fiz uma peça de roupa. Eu acreditava no potencial da minha marca. Por mais difícil que fosse, eu sabia que conseguiria atravessar aquele primeiro momento.

As pessoas não querem mais só consumir um produto. Elas querem consumir uma história, algo que vai muito além de estética.

Então comecei a trazer corpos invisibilizados para dentro da Nalimo. São mulheres negras, mulheres indígenas, comunidade LGBTQIA+. Porque eu entendia que essas pessoas, que somos nós, por muito tempo não se enxergaram em lugar nenhum.

Eu tive que pausar o empreendimento por um período porque fui estudar em Amsterdã. Quando voltei, estava muito motivada. Mas alguns meses depois a pandemia começou.

Acho que o meu ato mais corajoso foi não parar. Eu olhei para o meu sonho e falei: ‘Este é o momento, eu não vou desistir’. A marca é feita 100% por mulheres. Elas também precisavam ser fomentadas. E isso me deu muita força.

‘Sem saber cozinhar, abri um restaurante de comida africana’
chef sam, 50, dono do restaurante Mama África La Bonne Bouffe, em São Paulo

Em 1998, formado em engenharia eletrônica, eu saí do meu país, Camarões, para viajar o mundo. Conheci minha mulher no Brasil e desde 2009 vivo aqui.

Morei um tempo em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, mas lá eu não me encontrava. Então vim para a capital e tive uma loja na rua Santa Ifigênia [de comércio de artigos eletrônicos]. Mas, depois de dois anos, ela acabou.

Em 2016, resolvi abrir o Mama África, mas eu não sabia cozinhar. Aí o que eu fazia? Ligava para a minha família para perguntar como montar cada prato.

A proposta da minha casa é que a pessoa conheça a gastronomia africana. Muitos me falam: "Sam, a gente vem não só pela comida, mas pela sua forma de receber".

O cliente chega e eu falo: "Amigo, pode comer isso com a mão. Você desfruta mais da comida".

No início do restaurante foi um sofrimento porque não havia vendas. Fiquei com a minha esposa, só nós dois trabalhando. Mas aguentei e acreditei na minha proposta.

Quando percebi que estava dando certo, em 2019, um amigo me falou: "Vou te emprestar um dinheiro, mas você deve colocá-lo para divulgação nas redes sociais". Estou de pé graças a isso.

Depois de dois meses de pandemia, tive de demitir meus funcionários. Fiz promoções nas redes sociais. O cliente via que o prato de R$ 40 estava por R$ 20. Foi assim que sobrevivi.

Meu plano é ter uma casa maior, onde eu possa receber muitas pessoas. Dois anos atrás, não tinha fila no Mama África, mas hoje, no sábado, tem. Todo dia estamos crescendo.



‘Construir uma marca é uma caminhada, não dá para ter medo’Diana Córdoba, 28, criadora da marca de joias Diana Córdoba Design

Sou colombiana e tenho uma filha de 9 anos. Eu me encontrei na área do fazer manual. A minha história e a da minha marca são de resiliência, porque sempre tive que me reinventar rapidamente.

Desde criança sempre gostei de fazer colares, algumas coisinhas com miçangas. Eu terminava vendendo para as amigas da minha mãe. Com a vinda da minha filha, senti vontade de decorar o quarto dela e parti para a pintura.

Sempre fui uma mulher economicamente independente e, para mim, o fazer manual sempre foi terapêutico. Decidi unir a pintura às mandalas e me pus a criar mandalas aplicadas sobre pedras.

Comecei a participar de feiras. E foi em uma delas, em Bogotá, que conheci o meu companheiro. Ele vivia no Brasil e a gente passou a namorar a distância, até eu vir morar em São Paulo, em 2016.

Após ter pintado tanto, dado aulas e meditado em busca de autoconhecimento, eu me interessei pela aromaterapia. Fui estudar joalheria para poder desenvolver um pingente difusor de aromas, para ser usado no pescoço, em um cordão. O primeiro deles se chamou Cuidado e deu grande visibilidade à marca.

Então veio a pandemia e precisei me reinventar mais uma vez, porque agora eu tenho o aluguel da minha loja-ateliê para pagar. Mas está sendo uma fase de sucesso.

A marca tem bandeiras e raízes. Tentamos mostrar isso em cada ensaio fotográfico, de uma forma que abrace a diversidade de mulheres tal como elas são.

Construir uma marca é uma caminhada. Não dá para ter medo. Você se joga e, se não der certo, você faz dar.



‘A acessibilidade é necessária não só no lazer, mas em tudo
Ricardo Shimosakai, 53, fundador da consultoria de acessibilidade que leva seu nome

Em 2001, levei um tiro em um sequestro-relâmpago que mudou a minha vida. Perdi o movimento das pernas, mas tive uma boa aceitação.

No centro de reabilitação, comecei a praticar tênis de mesa, o que me deu um suporte muito grande. Você tem que ser forte, treinar e aprimorar sua técnica para ser campeão. Trouxe um pouco disso para a minha vida, porque, no dia a dia, ela é uma competição.

Quando eu decido ir ao cinema, por exemplo: da minha saída até chegar ali são várias provações. Buracos na calçada, ônibus sem acessibilidade e, às vezes, uma sala de cinema que não tem espaço para a cadeira de rodas.

Eu quis resgatar aquilo que me dava alegria na vida. E uma das coisas era passear e viajar. Meus colegas com deficiência viam nas redes sociais o que eu estava fazendo e perguntavam: ‘Como você fez isso?’. Teve um pessoal que falou: ‘Por que você não trabalha com isso?’.

Naquela época, o turismo acessível era praticamente inexistente no Brasil, e eu precisava fazer alguma coisa.

Vi que toda a bagagem que acumulei trabalhando com turismo acessível poderia ser melhor aproveitada, porque a acessibilidade é necessária não só no lazer, mas em tudo.

Como eu quis expandir a minha atuação, deixei a marca Turismo Adaptado e agora a minha empresa leva o meu nome, Ricardo Shimosakai. O propósito da minha empresa é ter um mundo mais equitativo. Porque o pessoal fala em igualdade, mas as pessoas são diferentes. A gente só precisa ter um mundo mais justo, que respeite as diferenças e que, dentro dessas diferenças, todo mundo possa ter sua oportunidade.



‘Vão tentar te convencer de que você não pertence àquele lugar’
André Vitor, 32, fundador da Rainbow Manutenção Residencial, que atende na Grande São Paulo

Sou um homem trans e trabalho na área de manutenção. Percebi que estava fora da caixa da heteronormatividade aos 13 anos. Foi um processo difícil de aceitação, pois minha família é muito religiosa.

Aos 23, saí de casa e comprei uma maletinha de ferramentas para arrumar minha casa nova. Fui aprendendo na raça mesmo. Por causa da socialização feminina, ninguém nunca me ensinou nem a trocar um chuveiro.

Então uma amiga me marcou em uma publicação de uma menina que tinha comprado uma mesa usada. Fui à casa dela fazer o restauro e cobrei um valor simbólico. Aí as coisas passaram a fluir.

Quando comecei a transição, ainda era preciso entrar com um processo jurídico. O meu demorou um ano e meio. Minha barba cresceu, mas eu não tinha a nova documentação. Era um constrangimento muito grande. Cheguei a ser ridicularizado na portaria de clientes.

Em 2019, encarei a manutenção como profissão. Em dois meses, a equipe já estava com 20 pessoas. Apesar da experiência no serviço, eu não sabia gerenciar um negócio. Então, parei.

Em janeiro de 2021, decidi recriar o projeto. A cada agendamento, faço uma doação de R$ 5 para a Casa 1 [que acolhe jovens expulsos de casa por sua orientação sexual ou identidade de gênero]. É uma forma de dar suporte a pessoas LGBTs em situação de vulnerabilidade.

Ao me tornar socialmente uma pessoa trans, percebi que existem lugares muito delimitados. É importante não aceitar esses limites, porque vão tentar o tempo todo te convencer de que você não pertence àquele lugar.

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