Clarice Lispector foi fichada pela polícia e era fã de videntes, mostra biografia

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Fichada pela polícia política do governo Eurico Gaspar Dutra, em 1950. Com medo de ser deportada por ser "judia e russa". Mostrada em uma entrevista inédita para TV. Monitorada pela ditadura militar nos anos 1970. Elogiada por Pagu, elogiando D.H. Lawrence. São muitas versões de Clarice Lispector que aparecem fortes no novo livro de Teresa Montero.

Na verdade, é uma ampliação da biografia que a autora publicou em 1999, "Eu Sou uma Pergunta". Para o centenário de nascimento de Clarice, comemorado em 2020, a editora Rocco comunicou a Montero a intenção de reeditar o livro, esgotado desde 2010. "Então quis fazer uma edição revista, ampliada."

Por cerca de dois anos e meio, Montero trabalhou nos capítulos adicionais que tornaram "À Procura da Própria Coisa: Uma Biografia de Clarice Lispector" um volume de 768 páginas. "Eu não mudei o meu método, não mudei a minha maneira de pensar biografia. Cada biógrafo tem o seu olhar, as suas escolhas", diz a autora, que dedica o livro aos arquivos públicos.

"O que me fascina nas pesquisas são as fontes primárias", referindo-se aos documentos que atestam fatos há muito tempo presentes nas discussões sobre Clarice, como a vigilância de órgãos de repressão e a existência de uma segunda entrevista para a TV, além da celebrada filmagem para a TVE já bastante conhecida.

"Essa parte da polícia política, como pesquisadora sabia da existência disso, já foi noticiado, mas eu queria buscar os documentos." Ela se voltou para o período da ditadura militar porque percebia lacunas nos relatos.

"Infelizmente a gente ainda escuta comentários de que ela não era engajada, porque escrevia uma literatura íntima e tal, e eu ficava indignada! Clarice não era uma mulher de levantar bandeira, não era a primeira da fila, mas ela se posicionou em vários momentos, temos textos e também fotos, como sua presença na Passeata dos Cem Mil, no Rio", diz, referindo-se à maior manifestação popular contra a ditadura, em 26 de junho de 1968.

Quando buscou esse material, Montero se utilizou do Arquivo Nacional e também do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, o Aperj. Encontrou um dossiê do Serviço Nacional de Informações, de 1973, com cópias de documentos, telegramas e transmissões por telex. Mas descobriu mais.

"Para minha surpresa, ali estava a grande diferença, que é ela ter sido fichada no governo Dutra, em 1950. Porque, na ditadura militar, quem não foi fichado? É claro que o que eu encontrei é surpreendente, mas por que ela teria sido monitorada em 1950?"

A linha de pensamento de Montero se voltou então para a nacionalidade "russa" de Clarice, que nasceu na Ucrânia e veio para o Brasil com dois anos de idade. "Ela sempre ocultou suas origens judaicas. Hoje penso que ela poderia ter receio de acontecer alguma coisa com ela. A tradutora Tati de Moraes me disse que a Clarice tinha medo de ser deportada. Eu não sei que momento Clarice disse isso para a Tati, elas se conheceram provavelmente nos anos 1940."

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A autora contextualiza que em 1950 era muito recente esse olhar do governo Dutra para os judeus comunistas, e existem provas de perseguições.

"Sobre esse receio dela de falar sobre isso, é preciso lembrar que dez anos antes Clarice era uma estudante na faculdade de direito. Quando ela entra na faculdade, em 1939, não era naturalizada, ela era russa. Ela só consegue a naturalização em janeiro de 1943, fez todo esse período na faculdade sendo russa e judia. Fica claro que ela carregava um temor. Faz sentido. Ela teve dois primos presos e torturados no governo Vargas."

O entusiasmo de Montero é grande pela descoberta de texto crítico elogioso a Clarice escrito por Pagu, a escritora, poeta e jornalista Patrícia Galvão. A autora aponta que Pagu foi ao lançamento de "Laços de Família" em São Paulo, em 1960. E, ao elogiar o livro, deixou claro que conhecia sua obra toda.

"Naquele momento, Pagu já a colocou como uma grande escritora, e Clarice ainda era vista com desconfiança por muitos. ‘Laços de Família’ foi mesmo um acontecimento, todo mundo ficou mobilizado pelo livro. Houve um acolhimento, mas ela não era uma unanimidade. Isso veio com o tempo. Com isso, o artigo da Pagu, que está na nova biografia, ganha um significado especial."

Montero também incluiu no volume duas críticas literárias escritas por Clarice para a revista Senhor, sobre "Filhos e Amantes", de D.H. Lawrence, e "Contos", de Graham Greene.

A biógrafa ficou encantada ao ler Clarice falando de Lawrence. "É um autor que as pessoas não ligam a ela, sempre falam de James Joyce, de Virginia Woolf, mas ninguém fala da grande paixão literária dela, que era o Lawrence. São artigos muito reveladores de como ela se colocava como escritora. Se você ler com atenção, vai ter uma ideia do que ela considerava ser o modelo de um escritor excepcional."

Outro destaque entre as novidades é a entrevista de Clarice gravada pela TV Cultura em seu apartamento, no Leme. Montero transcreve todo o áudio, ressaltando trechos inaudíveis.

"Imagine isso guardado 45 anos dentro de uma lata. Você achar uma entrevista em que ela está em seu apartamento, puxa, é impressionante. Eu fiquei pelo menos cinco anos com a informação de que essa entrevista existia, mas, claro, todo mundo tem outras coisas para fazer na vida. Quando a Rocco me passou a ideia de relançar a biografia, eu vi que tinha mesmo de ir atrás."

Curioso é o capítulo "Memórias de um Caderno de Telefones", em que Montero reconstrói as amizades e o cotidiano de Clarice a partir do caderno guardado por sua sobrinha-neta, Nicole Algranti.

"A gente fala muito da relação de Clarice com videntes, falamos muito de Dona Nadir, mas quantos telefones de videntes estão anotados ali! Dos bairros mais distantes. É incrível como Clarice tinha essa preferência, quase uma obsessão, de ir a videntes. São pequenos detalhes, o comércio local, as costureiras. Além de coisas curiosas, como a anotação de uma receita de tinta de cabelo", conta, rindo. Segundo a autora, o caderno foi utilizado entre 1975 e 1977, ano da morte da escritora.

Montero diz que ainda existem caminhos de Clarice a serem seguidos. "Não há biografia definitiva. O livro é dedicado aos arquivos públicos, porque sem isso a gente não faz. É essa rede de professores, de pesquisadores. Não é apenas o Brasil de agora, uma situação que está achatando esses profissionais. O problema é muito antigo. A questão da memória no Brasil precisa ser debatida."

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