Brasil aposta no etanol para atingir meta de descarbonização

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A busca por alternativas para a descarbonização da economia global nunca foi tão urgente. Não por acaso, o tema dominou as discussões durante a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), encerrada no último dia 14, em Glasgow, na Escócia. Em meio a um cenário desafiador, algumas tecnologias de baixo carbono já consolidadas passaram a ganhar força neste debate, caso do etanol brasileiro.

Amplamente utilizado no Brasil há mais de 30 anos, o biocombustível produzido a partir da cana-de-açúcar e do milho passou a ser visto como uma solução de curto prazo para a descarbonização dos transportes a curto prazo. Os números não mentem: hoje, até mesmo veículos equipados com motores a combustão interna utilizando etanol de baixa pegada de carbono emitem menos até do que os carros elétricos que rodam na Europa, levando em consideração as emissões decorrentes da produção da energia utilizada por eles.

De acordo com um estudo recente publicado pela multinacional do setor de autopeças Mahle, um automóvel movido a gasolina na Europa emite em média 145 gramas de CO2 equivalente por quilômetro rodado considerando o ciclo completo do poço à roda, enquanto um elétrico emite 92 gramas.

No Brasil, a mistura de etanol e gasolina na matriz de combustíveis do ciclo Otto emite 87 gramas de CO2 equivalente por quilômetro rodado - número obtido graças à mistura de 27% de etanol anidro no combustível fóssil e ao uso do etanol puro na frota flex. Mesmo considerando a matriz elétrica brasileira, que é fortemente (83%) relacionada a energias renováveis, um veículo elétrico emite 65 gramas, contra apenas 58 gramas do etanol hidratado na frota flex convencional. O futuro, porém, passa pela disseminação cada vez maior dos modelo híbrido que combine eletricidade com etanol, capaz de reduzir as emissões a apenas 29 gramas de CO2 equivalente por quilômetro.

"Os biocombustíveis, em particular o etanol, cujo a principal fonte é a cana-de-açúcar, tem desempenhado, e desempenhará cada vez mais, um papel significativo nos esforços de descarbonização do setor de transportes", afirmou em Glasgow o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque. "Os produtos da cana-de-açúcar respondem atualmente por 19% da matriz energética brasileira e tendem a crescer nos próximos anos."

Ainda de acordo com o ministro, em termos de uso de fontes renováveis nos transportes, o Brasil atualmente é superado por somente dois países: Suécia e Noruega. No total, a produção brasileira de etanol chega a 32,5 bilhões de litros por ano, o que coloca o país na segunda colocação entre os maiores produtores globais do biocombustível.

Parte da solução

Para os profissionais ligados ao setor sucroenergético, porém, o etanol não deve ser visto como uma "bala de prata" no enfrentamento às mudanças climáticas. Segundo eles, apesar das inúmeras vantagens em relação aos veículos elétricos, que exigirão investimentos bilionários em infraestrutura para a geração de energia limpa e a criação de uma complexa rede de distribuição, o biocombustível brasileiro deve ser encarado como uma tecnologia complementar.

"Nós somos parte da solução", afirma Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). "O etanol vai contribuir, a partir de uma indústria já consolidada e robusta, com 360 usinas instaladas no Brasil, que emprega diretamente 700 mil pessoas e indiretamente cerca de 2,3 milhões de trabalhadores e hoje fatura US$ 40 bilhões por ano."

O executivo destaca ainda o potencial energético dos canaviais brasileiros para além do etanol. Segundo Gussi, a produção atual de energia elétrica a partir de biomassa ultrapassa os 22 mil gigawatts, o suficiente para abastecer 12 milhões de residências por um ano, e o potencial uso do etanol como célula combustível.

"Tudo isso sem contar o aspecto social. Existem no Brasil cerca de 70 mil produtores independentes de cana-de-açúcar, uma cultura que leva desenvolvimento socioeconômico para o interior do País. Para se ter uma ideia, nos municípios onde existem usinas o PIB per capita chega a ser US$ 1.000 superior à observada nas cidades vizinhas."

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