Bolsonaro diz que recepção de Lula por Macron pareceu provocação

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O presidente Jair Bolsonaro criticou nesta quinta-feira (25/11) a recepção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo líder da França, Emmanuel Macron, em Paris, afirmando que o encontro no Palácio do Eliseu pareceu uma "provocação".

A declaração foi feita em entrevista à Rádio Sociedade da Bahia, na qual Bolsonaro alfinetou Macron – seu desafeto e crítico ferrenho da política ambiental de seu governo – e afirmou que o presidente francês e o petista "falam a mesma linguagem".

"Macron sempre foi contra a gente, e ele sempre bateu na questão da Amazônia. Como se ele e seus antecessores tivessem preservado alguma coisa na França. Parece que é uma provocação, sim", disse Bolsonaro, respondendo à pergunta sobre se a atitude de Macron em relação a Lula foi uma provocação ao Brasil ou ao presidente.

"A França não é exemplo para nós, muito menos o seu Macron. Seu Macron está muito bem acompanhado de Lula, e Lula está bem acompanhado do seu Macron. Eles se entendem, falam a mesma linguagem", continuou.

O presidente ainda mencionou o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, assinado em 2019 e que no momento está totalmente travado, em grande parte por causa do avanço do desmatamento no Brasil sob Bolsonaro e a resistência de Macron em ratificar o documento, citando questões ambientais como entrave.

"Em 2019 demos mais um passo para fazer um acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. O grande opositor a esse acordo é o presidente da França. Em parte nós concorremos com o que produzimos para o mundo, as commodities, coisas que vêm do campo", disse o brasileiro, sugerindo que a resistência de Macron estaria relacionada à exportação de commodities do Brasil.

Sobre o ex-presidente petista, Bolsonaro ainda afirmou que é interessante ao presidente da França que o líder brasileiro seja uma pessoa "passiva e corrupta, como é o Lula".

Tanto a França como o Brasil passarão por eleições presidenciais em 2022. Lula, no momento, é o favorito isolado para vencer o pleito no Brasil. Macron, por sua vez, busca a reeleição e também aparece em primeiro lugar nas pesquisas para o primeiro turno.

Honras de chefe de Estado

Em encontro em Paris em 17 de novembro, Macron recebeu Lula pessoalmente na entrada do Palácio do Eliseu, sede do governo francês, ao lado de militares da Guarda Republicana francesa, um protocolo normalmente reservado a chefes de Estado estrangeiros.

Depois da reunião, o ex-presidente brasileiro disse "que os líderes mundiais precisam se sentar à mesa para dialogar e enfrentar esses desafios com uma governança global". "Dividimos preocupações como o avanço da extrema direita pelo mundo e as ameaças à democracia e aos direitos humanos. Agradeço pela cordial recepção", afirmou Lula.

A recepção amistosa de Macron foi encarada como um recado ao presidente brasileiro. No Twitter, o correspondente do jornal francês Le Monde no Brasil classificou a reunião com Lula como "uma bofetada em Jair Bolsonaro".

Segundo o colunista Jamil Chade, do UOL, diplomatas brasileiros e estrangeiros na Europa concordam que o presidente foi "humilhado" com a recepção calorosa do petista não só na França, mas também na Alemanha, na Espanha e no Parlamento Europeu, onde Lula discursou.

Diante disso, fontes do Itamaraty confirmaram que Bolsonaro estaria planejando uma visita a países europeus governados pela extrema direita para o início de 2022. A Polônia, do primeiro-ministro Mateusz Morawiecki, e a Hungria, do premiê Viktor Orbán, estariam na lista.

Honraria ao líder da oposição

Não bastando o afago ao principal adversário de Bolsonaro em 2022, Macron ainda concederá a mais alta distinção da França ao senador brasileiro Randolfe Rodrigues (Rede-AP), líder da oposição no Senado.

O governo francês marcou para 6 de dezembro a entrega da Ordem Nacional da Legião de Honra a Randolfe, vice-presidente da CPI da Pandemia e crítico ferrenho do governo Bolsonaro.

A cerimônia é tradicionalmente realizada em Paris, mas devido à pandemia ocorrerá na embaixada francesa em Brasília. O senador será o único político e o único brasileiro a receber a famosa condecoração neste ano.

Segundo o governo da França, a honraria reconhecerá a atuação de Randolfe no combate à covid-19 no Brasil, bem como sua "defesa fervorosa" do meio ambiente e seu "forte comprometimento com a luta pela preservação das reservas na Amazônia".

Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro Uma relação tensa. Bolsonaro e seus ministros já ofenderam Macron publicamenteFoto: picture-alliance/J. Witt

Relação conflituosa

Nos últimos três anos, Bolsonaro travou um relacionamento extremamente hostil com Macron, e as relações entre Brasil e França se deterioraram a um nível que não era visto desde o  início dos anos 1960, quando os dois países travaram uma disputa sobre direitos de pesca.

Em julho de 2019, Bolsonaro esnobou em Brasília o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, cancelando em cima da hora uma reunião – pouco depois, o brasileiro apareceu numa live cortando o cabelo.

O "bolo" intencional não passou despercebido na França, e Bolsonaro justificou o gesto grosseiro afirmando que foi uma reação à agenda de Le Drian no Brasil que previa encontros com ONGs "que ferram" o Brasil.

No mês seguinte, o relacionamento se deteriorou ainda mais quando Macron começou a fazer objeções públicas ao acordo entre a UE e o Mercosul, citando as intensas queimadas que castigavam a Amazônia e a agenda antiambiental de Bolsonaro. Macron ainda sugeriu que os países do G7 discutissem a destruição da floresta.

A posição do francês irritou membros do governo Bolsonaro e da família do presidente, que logo passaram a proferir insultos públicos contra Macron. As ofensas se intensificaram após o presidente francês afirmar em nota que Bolsonaro "mentiu" sobre as garantias que havia dado sobre a preservação da Amazônia à época da assinatura do acordo.

Ainda em agosto de 2019, Bolsonaro endossou nas redes sociais um comentário sexista sobre a aparência da esposa de Macron, Brigitte. O ministro da Economia, Paulo Guedes, também repetiu a ofensa sexista em um evento com empresários. Macron respondeu publicamente ao insulto afirmando que esperava que os brasileiros "tivessem logo um presidente à altura do cargo". "É triste, é triste para ele, primeiramente, e para os brasileiros", disse o líder francês.

Já o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, chamou o presidente da França de "cretino" e "calhorda oportunista". O ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, por sua vez, fez um trocadilho com o nome do francês, chamando-o de "Mícron".

ek (DW, ots)

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