Biden faz discurso contraditório sobre conflito com a China na ONU

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Em sua estreia no púlpito das Nações Unidas como presidente dos Estados Unidos, Joe Biden entregou um pomposo e contraditório discurso.

Para cada aceno à sua rival estratégica central, a China, havia um recado remetendo à beligerância com que vem tratando Pequim. Promoção dos ditos valores americanos eram turvados pela realidade dos escombros deixados pelos 20 anos de ocupação do Afeganistão.

Isso dito, foi uma fala de estadista em termos de escopo. Os grandes temas estavam todos lá: o combate à Covid-19 e ao aquecimento global, os desafios da "década decisiva" à frente, segurança cibernética, terrorismo.

Um alívio após os excruciantes minutos no qual Jair Bolsonaro, reassumindo com louvor o título de pária mundial da vez, desfiou uma fantasia regressiva e voltou a insistir no charlatanismo contra o novo coronavírus, em pleno setembro de 2021.

Que seu ministro da Saúde tenha ganho cinco minutos de fama com uma grosseria vulgar é apenas lógico, no contexto.

Voltando a Biden, o americano pontuou seu discurso com referências a temas caros na sua disputa com os chineses. Falou da importância renovada do Quad, sua aliança com Japão, Índia e Austrália, a defesa da liberdade de navegação e criticou desinformação e coerção econômica.

Nada mais claro acerca do alvo. Ao mesmo tempo, afirmou: "Nós não estamos buscando uma nova Guerra Fria ou um mundo dividido". Agradável ao ouvido, mas sem base na realidade implantada a partir de 2017 pelo caótico Donald Trump ante a crescente assertividade de Xi Jinping.

O próprio Biden foi na direção contrária na semana passada, quando surpreendeu o mundo diplomático ao anunciar um acordo militar com a Austrália e o Reino Unido que visa equipar a ilha-continente ao sul do colosso chinês com submarinos movidos a energia nuclear.

Contradições de conveniência também se colocaram automaticamente. Para Biden, EUA e mundo precisam ajudar o Afeganistão, e isso não deve incluir a imposição de valores ocidentais ao miseráveis novamente sob administração do Talibã.

Até aí, é a realidade. Só que o fim do discurso de Biden embutiu uma apaixonada defesa dos representantes do "mundo democrático", que "vivem" numa série de locais asfixiados —significativamente, bem pouco ocidentais.

Pouco antes, contudo, o americano tocou música para pacifistas ao dizer que não há saída militar para todos os problemas. Ao mesmo tempo, que prezava suas alianças como forma de garantir "segurança e liberdade". É um bufê de clichês, ao gosto do cliente.

É de se especular o que a representação francesa na ONU achou da fala, em especial quando Biden reforçou seu comprometimento com a Otan, a aliança militar criada em 1949 para conter a União Soviética na Europa e que ele tenta tornar num aliada contra a China.

Afinal de contas, o acordo entre países anglófonos e com história comum anunciado na semana passada não tirou apenas bilhões de euros em submarinos que Paris iria vender a Camberra: mostrou que na disputa com a China, Washington não conta com a constância dos franceses.

Esse é um pensamento típico dos anos 1940, olhando para países por seu valor de face. Não que o conflito entre EUA e China esteja no horizonte visível além da Guerra Fria 2.0 em curso, mas na hipótese de ela ocorrer, é lícito questionar se a França estaria disposta a peitar Pequim fornecendo suporte a submarinos seus na Austrália.

Melhor ficar com os americanos, é o corolário australiano apresentado, de resto resultado de uma pressão vista como excessiva por parte da ditadura comunista sobre o país.

No mais, Biden foi protocolar e deu nome aos bois usuais, o Irã e a Coreia do Norte, buscando sinalizar que não esqueceu do fato de que esses itens estão no topo de sua agenda de problemas a resolver.

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