Bexiga é endereço de grandes companhias de teatro e espaços culturais de memória afetiva

4 dias atrás 12

Quem anda pelo Bexiga, no centro de São paulo, tem acesso a uma programação cultural completa, com exposições, shows, gastronomia e, especialmente, teatros.

Reduto de grandes companhias de teatro, a região viu alguns desses espaços não resistirem ao tempo, enquanto outros permaneceram de pé.

Um exemplo é o teatro Oficina, que está na região desde 1961, e que se prepara para estrear o espetáculo "O Bailado do Deus Morto" na próxima sexta, 3. Seu prédio, na rua Jaceguai, é marcado por uma parede de vidro em que a cidade invade o teatro e vice-versa. "O imediatamente fora, que é o Bexiga, importa e está sempre dentro", define Cafira Zoé, multiartista e integrante da associação do teatro.

Partindo de um teatro de encruzilhada, com artistas de diferentes formações, há um espaço que fica literalmente em uma encruzilhada: o Teatro do Incêndio.

Desde 2017, um imóvel de 1905 localizado no ponto entre as ruas Treze de Maio e Santo Antônio abriga a companhia. A casa, que é tombada, já sediou o Café Society e a boate Igrejinha, onde a cantora Maysa fez seu último show, e agora passa por reforma que inclui até um parklet.

Atualmente, o grupo realiza o projeto "Sou Encruzilhada, Sou Porta de Entrada, Sou Correnteza da Vida, Sou Esquina Cortada: Ave Bixiga!", uma combinação de residência artística e aulas de teatro para crianças e adolescentes que se transformará em escola cultural no ano que vem. "O projeto está relacionado com a gente estreitar o nosso olhar artístico para o bairro", diz Gabriela Monteiro, diretora de produção da companhia.

Seguindo para a rua dos Ingleses, há o Museu Memória do Bixiga, um espaço onde laços afetivos com o bairro são evidenciados. Aberto em abril de 1981, ele foi criado para exaltar a memória das pessoas que formaram a região.

Quem criou o projeto foi Armando Puglisi, o Armandinho do Bixiga. Depois de sua morte, em 1994, a gestão do espaço passou por problemas familiares, o que fez com que ele perdesse o objetivo inicial. Só em 2017 a família reiniciou o processo gradual de retomada das ações.

Tim Ernani, que assumiu a direção do museu em 2019, tem como missão reaquecer a programação com novos projetos. O primeiro é o "Memória Negra do Bixiga", com objetos de dois pontos preponderantes dali: a Vai-Vai e a paróquia Nossa Senhora da Achiropita, que aparece representada pela Pastoral Afro, a primeira do Brasil, criada há 33 anos pelo Padre Toninho.

Já na área dedicada à escola de samba, é possível encontrar o caderno com a ata de sua criação, em 1959, o apito e cuíca de seu Livinho, um dos criadores do cordão carnavalesco que daria origem à Vai-Vai.

Todo o trabalho foi feito com a comunidade, com objetos trazidos por moradores. "Essa é a melhor forma de fazer as pessoas se interessarem pelo lugar e fazer com que ele seja delas", defende Ernani.

Seguindo para a rua dos Ingleses, esse sentimento de pertencimento é cada vez mais construído. Lá fica o Museu Memória do Bixiga, que abriu suas portas pela primeira vez em abril de 1981, com o intuito de fortalecer a memória das pessoas que construíram a história da região. O responsável pelo acervo e que deu o pontapé inicial no projeto foi Armando Puglisi, também conhecido como Armandinho do Bixiga.

Depois de sua morte, em 1994, as visitas ao espaço passaram a ser só agendadas, e ao longo do tempo, com imbróglios familiares pela gestão do espaço, ele foi perdendo o seu objetivo inicial. Em 2017, a família reiniciou um processo gradual de retomada das ações.

Criada em 2007 a partir das rodas de capoeira que aconteciam na praça da República, a Casa Mestre Ananias exibe a tradição popular não apenas do bairro, mas da cultura brasileira. A escolha da região não foi ao acaso, pois ali foi o primeiro local onde o Mestre Ananias morou quando chegou da Bahia, nos anos 1950. Rodrigo Minhoca, capoeirista e um dos fundadores do projeto, diz que enxergou a região como um ambiente fértil para trabalhar a capoeira.

"A gente construiu um campo de cultura popular que é aliado à sociedade, com a rotina de fazer festa, roda", explica Minhoca.

Além das rodas de capoeira, tradicionais às terças-feiras, as rodas de samba também marcam a programação do local, que inclui, ainda, projetos sociais para crianças e idosos.

Por fim, o Bexiga também abriga o novo Centro Cultural Vila Itororó, na rua Maestro Cardim, uma antiga vila residencial jamais finalizada, que acabou tombada como patrimônio histórico em 2002 e que foi inaugurada oficialmente como espaço cultural em setembro deste ano.

Higor Advenssude, gestor do centro cultural, reconhece que o local que não é convencional —e nem foi concebido para esse fim.

A programação destaca jovens artistas com projetos autorais e também os periféricos. Ela acontece em palcos não-convencionais, como o cinema ao ar-livre às quintas na piscina, sexta-feira tem show no palco Éden, sábado a música na rua acompanha quem visita o local na noite a programação volta para a piscina, assim como no domingo. Há também probramação no palco ruínas, onde foi construída e primeira casa da Vila.

"Eu entendo o Bexiga como um lugar periférico no centro de São Paulo", diz. "A Vila Itororó sempre teve esse lugar periférico e a gente percebeu que aqui era um lugar de uma ocupação preta."

A vila parece uma cidade, com programações em palcos que recebem seu próprio nome. O cinema ao ar-livre às quintas acontece na piscina, sexta-feira tem show no palco Éden, sábado a música na rua acompanha quem visita o local na noite a programação volta para a piscina, assim como no domingo. Há também probramação no palco ruínas, onde foi construída e primeira casa da Vila.

"Essa é uma característica da Vila, proporcionar esse lugar não convencional, de uma estranheza a princípio que se torna uma potência para quem está se apresentando e para o público", afirma Advenssude.

O foco da programação, segundo o gestor, é em artistas iniciantes, projetos autorais e também periféricos. "Eu entendo o Bixiga como um lugar periférico no centro de São Paulo", diz. "A Vila Itoróró sempre teve esse lugar periférico. Conversando com moradores a gente percebe que aqui era um lugar de uma ocupação preta."

Para curtir SP

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Roteiro cultural no Bexiga

Casa Mestre Ananias
O espaço retoma a programação com a 25ª Festa do Mestre, em memória de Ananias, que morreu em 2016. O evento atrai a comunidade da capoeira, com rodas de capoeira e samba, além de almoço.
r. Conselheiro Ramalho, 939. Dia 5/12, sábado, das 14h às 22h


Museu Memória do Bixiga
O centro cultural recebe a motra "Memória Negra do Bixiga". Neste sábado (27), promeve oficina gratuita de ritmo com a bateria 013.
r. dos ingleses, 118


Teatro do Incêndio
A companhia ensaia o espetáculo "Águas Queimam na Encruzilhada", que estreia em julho de 2022. Até lá, a agenda teatral está pausada, mas mantém a programção do projeto Sou Encruzilhada, Sou Porta de Entrada, Sou Correnteza da Vida, Sou Esquina Cortada: Ave Bixiga!. Todo penúltimo domingo do mês, o parklet em frente ao teatro recebe rodas e conversas relacionadas ao samba. A que encerra o ano é sobre compositores.
r. treze de maio, 48


Teatro Oficina
"Paranoia", que marcou a reabertura do teatro, tem suas últimas sessões. Na sexta, dia 3/12, o espaço recebe a reestreia "O Bailado do Deus Morto".

r. Jaceguai, 520. "Paranoia" - Sex.(26) e sáb. (27), às 20h. Ingr.: R$50 em sympla.com.br. "O Bailado do Deus Morto" - Sex. a dom. (3 a 19/12), às 20h. Ingr.: R$60 em sympla.com.br


Vila Itororó
A peça "As Mulheres dos Cabelos Prateados", de Ave Terrena de Georgette Fadel, está na programação.

r. Maestro Cardim, 60
"As Mulheres dos Cabelos Prateados" - Sex. a dom., às 19h, no palco ruínas. Até 4/12. Grátis

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