Beraba se tornou porto seguro da organização na Folha

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Mestre, o vocativo que virou marca pessoal. Diretor de sucursal do Rio, editor de política, secretário de Redação e ombudsman. Ao longo dessa trajetória, o jornalista Marcelo Beraba, 70, costumava chamar os subordinados de "mestre" ao convocá-los para conversas —às vezes, duríssimas— sobre pautas e reportagens da Folha.

De tanto usar o vocativo, ele próprio passou a ser chamado de mestre. O apelido não se deve apenas ao vício de linguagem, mas à maestria com que, segundo pupilos e colegas de Redação, apostava em novos talentos, estimulava reportagens investigativas e organizava grandes coberturas.

Carioca, ele iniciou a carreira ainda estudante, em 1971, aos 20 anos, como repórter de cidades e cultura do Globo. Sua entrada na Folha como repórter no Rio, em 1984, contratado por Matinas Suzuki Jr. (à época, diretor da sucursal), coincidiu com a implantação do Projeto Folha.

Em agosto de 1985, Beraba foi promovido a diretor da sucursal, função que ocupou até 1988, quando foi transferido para São Paulo. Sob a coordenação dele, a sucursal produziu reportagens de impacto nacional, como a revelação do buraco de Serra do Cachimbo, concebido como instalação atômica (1986), e o vazamento na usina nuclear de Angra dos Reis (também de 1986).

Matinas, mais tarde editor-executivo do jornal, afirma que a geração que mudou a Folha era inovadora e contava com ótimos repórteres, além de comprometida com um modelo consistente de independência e apartidarismo. "Mas não tinha uma cultura organizacional da Redação à altura. Essa estruturação foi o Beraba quem implantou."

Segundo Matinas, organizado, disciplinado e capaz de reconhecer o que é notícia, Beraba mostrou "inigualável" capacidade de liderança na estruturação das grandes coberturas.

"Ele chamava o time de cobertura e passava para cada repórter instruções claras e precisas: ‘Mestre, você vai falar com o chefe do corpo de bombeiros e vai trazer essas informações...’; ‘Mestre, não há chance de não termos uma declaração do fulano publicada no jornal de amanhã’; ‘Mestre, você vai ser o carrapato do ciclano até na hora que ele for ao banheiro’’’, relata Matinas.

Em São Paulo, foi editor dos cadernos de cidades e de política. Coordenou o suplemento diário Diretas-Já, em 1989, ano da primeira eleição presidencial após 21 anos de ditadura militar, em uma disputa com 22 candidatos. "Para ter uma ideia da força que jornal deu a essa cobertura, chegou um momento que a editoria tinha 60 jornalistas", lembra.

Então redator de política e hoje vice-presidente da CNN Brasil, Américo Martins lembra a tensão na noite de 15 de novembro de 1989, quando a Folha publicou na manchete que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentaria Fernando Collor de Mello (PRN) no segundo turno, com base na pesquisa de boca de urna do Datafolha. Os resultados parciais ainda colocavam o pedetista Leonel Brizola à frente do PT.

Beraba tinha deixado duas edições preparadas para o impresso: uma com Lula e outra com um cenário de indefinição sobre quem concorreria com Collor.

Américo se recorda de que, pelas mãos de Beraba, foi alçado de plantonista da madrugada a redator e, posteriormente, pauteiro de política. "Mudou a minha vida. Foi um mestre para mim", afirma.

Colunista e diretor da sucursal do UOL em Brasília, Tales Farias conta que entrou na Folha a convite de Beraba. Começou na função de rádio-escuta (responsável por monitorar o noticiário de rádios e TVs) e foi promovido até substituir Beraba na direção da sucursal.

"Beraba havia ido para São Paulo. Nessa época, chegamos a nos desentender porque ele tentava manter a sucursal sob sua subordinação", lembra.

Segundo Tales, Beraba era especialmente exigente com sua mulher, a premiada repórter Elvira Lobato. "Como seu subeditor, tive que chamar a atenção dele várias vezes porque o achava exigente demais com nossa melhor repórter."

Outro subeditor da sucursal do Rio à época, Fernando Paulino diz que, apesar de duro, Beraba baixava o tom de voz para fazer uma cobrança, sempre iniciada com o vocativo "mestre".

Reconhecendo que o marido "pegava muito no pé", Elvira conta que, de tão disciplinado, o marido guarda até hoje organogramas sobre coberturas que organizou.

De 1996 a 1998, Beraba ocupou o cargo de editor-executivo do Jornal do Brasil, tendo breve passagem pelo Jornal da Globo. De 1999 a março de 2004, foi novamente diretor da sucursal da Folha no Rio.
De 2004 a 2007, atuou como ombudsman da Folha, assumindo depois vaga de repórter especial.

Trabalhou no Estado de S. Paulo de 2008 a 2019, quando se aposentou. No período, além de comandar as sucursais do Rio e de Brasília, atuou como editor-chefe responsável.

"Já fui editor, fechei primeira página... Mas o que me deu prazer, motivação, foi trabalhar com produção, repórteres, planejamento e pauta."

Em 2002, comovido com o assassinato do amigo Tim Lopes, foi um dos idealizadores da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que presidiu.

Marcelo Beraba, 70

Nascido no Rio de Janeiro, Marcelo Beraba começou sua carreira em 1971, no jornal O Globo. Trabalhou como repórter e diretor da sucursal da Folha no Rio, de 1984 a 1988, quando assumiu a editoria do caderno de cidades. Foi ainda editor do caderno de política e do suplemento diário Diretas-Já, em 1989.

Exerceu o cargo de secretário de Redação da Folha, de 1991 a 1996, ano em que tornou-se editor-executivo do Jornal do Brasil. Foi editor do Jornal da Globo em 1999. Do fim de 1999 a março de 2004, atuou como diretor da sucursal da Folha no Rio. De 2004 a 2007, foi ombudsman, depois repórter especial.

Trabalhou no jornal O Estado S. Paulo de 2008 a 2019, quando se aposentou. É um dos idealizadores da Abraji, entidade que presidiu.

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