Ativismo dentro das empresas é necessário, diz líder de recursos humanos da Meta

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A psicóloga Mafoane Odara, 43, gerenciava projetos de enfrentamento da violência contra as mulheres no Instituto Avon quando foi chamada, há um ano, para uma entrevista de emprego na Meta, como é hoje conhecida a companhia matriz do Facebook.

"Eu disse na entrevista: sou ativista e tenho uma missão de vida que é maior que o Facebook. Quero que vocês saibam, porque eu não vou deixar de fazer isso aqui dentro."

A veemência, em vez de jogar contra sua contratação, contribuiu para que fosse escolhida para a vaga. Hoje, como líder de recursos humanos para a América Latina, ela incentiva outros funcionários a assumir uma postura questionadora –num momento em que companhia enfrenta externamente uma sequência de acusações relacionadas a suas práticas de negócios.

Uma das atribuições de Mafoane é acelerar processos que tornem a Meta uma empresa mais plural. De acordo com o último relatório de diversidade, publicado em julho deste ano, 37% dos cerca de 68 mil funcionários são mulheres (os números são globais e dados regionais não são divulgados).

No que diz respeito à etnia, a força de trabalho é composta por 46% de asiáticos, 39% de brancos e 7% de hispânicos. Apenas 4% são negros.

"O ativismo não é apenas possível dentro das empresas, ele é necessário", afirma. "É uma ferramenta poderosa para torná-las mais humanas e conectadas com a transformação do mundo. Seja para nós, seja para outras empresas, não há outro caminho."

Antes de chegar ao universo corporativo, Mafoane trabalhou em instituições sem fins lucrativos com temas como relações de trabalho e desigualdade, empreendedorismo social jovem e mobilização cidadã.

Atualmente, concilia as atribuições de executiva de multinacional com a participação em diversos movimentos e organizações da sociedade civil –como o Fundo Brasil de Recursos Humanos, o Instituto Vamos Juntas e a RenovaBR.

Também dá consultorias, mentorias e palestras sobre os desafios das mulheres, principalmente de mulheres negras na carreira, na maternidade e na política institucional.

"Imagine uma pessoa com a minha história numa empresa que alcança 3,6 bilhões de pessoas, com recursos e abertura para inovar", diz. "É um parque de diversões."

A Meta é acusada de permitir que sua tecnologia seja usada para favorecer o vício de jovens em telas, a disseminação de discursos de ódio e o enfraquecimento da democracia. Como isso é vivido internamente?

A Meta tem uma ambição difícil, que é conectar bilhões de pessoas, cada uma com uma cabeça diferente. Antes do surgimento do Facebook, há 17 anos, não havia uma proposta no mundo que permitisse algo nessa escala.

Na medida em que isso foi acontecendo, vieram a polarização e as tensões, o que tem nos levado a uma série de reflexões sobre como lidamos com as nossas relações.

Nossa tecnologia existe para aproximar as pessoas e construir relações significativas. Partimos do princípio básico de que crimes não serão aceitos. Mesmo assim, não tem sido o suficiente num universo de 3,6 bilhões de usuários.

Reconhecemos a nossa responsabilidade. Temos mais de 40 mil funcionários olhando para a segurança nas redes, dezenas de projetos discutindo a estimulando o uso responsável das redes sociais, entre outras iniciativas. Ainda não temos todas as respostas, mas seremos incansáveis nessa construção.

Qual o impacto das polêmicas envolvendo a empresa nos funcionários? Ficou mais difícil atrair e reter talentos?

Não. E acredito que tem sido assim porque a Meta tem uma cultura de reconhecimento e de valorização muito forte das pessoas.

Abordamos todas as questões muito abertamente, sem assuntos proibidos. Oferecemos inúmeros recursos para cuidar do bem-estar dos funcionários, do desenvolvimento educacional, da jornada de carreira.

A cada semestre, fazemos uma pesquisa da qual participam 98% dos colaboradores. Perguntamos como veem o futuro da companhia, a gestão, o quão felizes estão no trabalho.

A última edição dessa pesquisa saiu logo depois da última polêmica [o vazamento de documentos internos que ficou conhecido como Facebook Papers]. Ela mostrou que as pessoas ainda confiam bastante na companhia e na direção em que estamos indo.

Você atuou por 20 anos movimentos e organizações da sociedade civil e nunca havia trabalhado com RH. O que a levou para a Meta?

Aqui, eu não preciso convencer ninguém que diversidade, equidade e inclusão são centrais para a estratégia de companhia. Isso já está dado. Porque a Meta só vai conseguir conectar 3,6 bilhões de pessoas se tiver representatividade do lado de dentro.

Além disso, imagine uma ativista com a minha história numa companhia que alcança bilhões de seres humanos, com recursos e abertura para inovar. É um parque de diversões.

Hoje 65% da liderança da Meta é composta por homens e a empresa tem apenas 4% de negros entre os funcionários. Como torná-la mais plural?

Nós estabelecemos duas grandes metas. A primeira é ter, até 2024, pelo menos 50% da força de trabalho composta por mulheres e grupos sub-representados —o que inclui pessoas com deficiências, pessoas com duas ou mais etnias ou veteranos de guerra nos Estados Unidos, por exemplo.

A segunda meta é aumentar em 30% a participação de diferentes grupos étnicos em funções de liderança até 2025.

Estamos avançando nas duas frentes. Em relação à primeira meta, já estamos em 46% de participação de mulheres e grupos sub-representados. No último ano, conseguimos um aumento de 38% de pessoas negras em cargos de liderança globalmente.

No Brasil, nosso maior desafio no Brasil é trazer mais pessoas negras para a área de tecnologia. Na América Latina, trazer mais mulheres.

Porém, mais do que perseguir métricas, queremos transformar o sistema. Porque, quando se trata de diversidade, os números são só a ponta do iceberg.

O que significa transformar o sistema?

Tem a ver com criar processos que impeçam os vieses na hora de selecionar, promover ou desenvolver as pessoas. Mulheres e negros, por exemplo, costumam ser muito mais avaliados pelo seu estilo do que pela sua performance.

Antes de fazer qualquer processo de recrutamento, os funcionários têm que passar por um treinamento contra vieses inconscientes.

Veja o que acontece com a questão da maternidade. No último ano, contratamos diversas mulheres grávidas. Como eu faço para que o fato de uma candidata ser mãe não seja um fator decisório para sua contratação?

Temos que ensinar as pessoas que há perguntas que não podem ser feitas num processo de seleção. Quantos filhos você tem? É casada? Onde seu filho vai ficar enquanto estiver trabalhando?

Se a profissional é mãe e tem determinadas necessidades, é nosso papel como companhia criar as condições para que ela possa trabalhar bem. Oferecer flexibilidade, espaços para pensar o fortalecimento das relações, o desenvolvimento das crianças. Não é ela que tem que se adaptar à empresa, é o contrário.

As empresas estão avançando mesmo na promoção da diversidade?

Elas estão sendo empurradas para esse lugar. Seja por oportunidade, seja por oportunismo, entenderam que é um caminho sem volta. As que vão por oportunismo têm sofrido mais.

A questão central é acelerar a chegada de mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+ nos espaços de liderança. A pauta das mulheres é a que mais avança. A mais difícil é a discussão racial, porque ainda há resistência em trazer o tema para dentro.

O que a Meta tem feito nessa frente?

Em parceria com a Feira Preta, o maior evento de cultura e empreendedorismo negro da América Latina, criamos a Jornada Preta. São rodas de conversa com talentos negros ao redor do Brasil para discutir temas como "o futuro é preto e ele não se constroi sozinho", afroempreendedorismo e a presença de mulheres negras nos espaços de decisão.

Dar visibilidade a essas experiências e trajetórias é importante para que seja possível reconhecer talentos a partir de olhares diferentes.

Também criamos um projeto de forma colaborativa com a consultoria EmpregueAfro e nossos maiores clientes para acelerar a carreira de pessoas negras, por meio de processos de mentoria.

Porque uma coisa que aparece muito nas trajetórias de pessoas de grupos sub-representados é a dificuldade de serem compreendidas, uma vez que a linguagem delas não é a mesma.

Você costuma dizer que descobriu sua missão ainda criança. Como foi isso?

Minha missão de vida é construir um mundo melhor para todas as pessoas, o que necessariamente passa por ajudar a tornar o mundo menos desigual.

Eu tinha dois anos de idade quando meu pai foi convidado por uma missão da ONU para construir escolas na zona de conflito entre Angola e Namíbia. Minha mãe, que na época também tinha um bebê de quatro meses, quis ir também.

Fomos e ficamos lá por quatro anos, mas quando voltei para o Brasil é que a minha guerra começou.

Aos dez anos, enfrentava muitos problemas na escola por causa da cor da minha pele e do meu cabelo. Então, combinei com minha mãe que todos os dias faríamos penteados diferentes, para eu poder mostrar que meu cabelo era bom.

Nessa época, aprendi duas coisas: que eu não precisava bater nas pessoas para fazê-las mudarem de ideia e que eu sabia como provocá-las. Percebia que, quando eu estava num ambiente, nada ficava igual.

Daí em diante ninguém mais me segurou. Fui criar grêmios em escolas, participar de organizações sociais, fazer trabalhos voluntários. Entendi que precisava criar espaços para poder negociar as coisas que considerava importantes.

Ter morado num país em guerra me ajudou a desenvolver o senso de solidariedade e a compreensão de que só o coletivo nos ajuda a sair de processos muito adversos.

Você lidera a área de RH. Incentiva que outros funcionários sejam ativistas como você?

Muito. O ativismo dentro das companhias não é apenas possível. É necessário. Porque ele é uma ferramenta muito poderosa para tornar as empresas mais humanas e conectadas com a transformação do mundo.

Aprendi com uma grande ativista chamada Jurema Werneck que ser ativista é colocar a esperança em movimento. Acredito que não existe uma forma única de fazer isso. Na Meta, eu procuro ajudar as pessoas a descobrir a delas.


Raio-x

Mafoane Odara, 43, é líder de RH da Meta (novo nome da companhia matriz do Facebook) para América Latina. Psicóloga e mestre em psicologia social pela USP, é presidente do conselho de administração do Fundo Brasil de Direitos Humanos, membro do conselho de diversidade da FGV-SP e dos conselhos consultivos do Instituto Vamos Juntas e da RenovaBR. Também integra as redes de líderes políticos da RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), da Fundação Lemann e do Movimento Agora!. É mãe do Mudrik Diop, 8, e da Makini Niara, 4.

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