Art Basel opõe o mundo dos NFTs vazios e o prazer tátil da arte

1 mês atrás 33

É estranho, e muito doce, o retorno. Se a Art Basel Miami Beach aponta uma tendência clara, e a feira é sem dúvida um termômetro preciso dos rumos do mercado, a arte do pós-pandemia se divide entre o admirável mundo novo dos NFTs, obras digitais que funcionam à base dos códigos blockchain, e uma ânsia febril pelo retorno mais rápido possível ao mundo tátil e físico que passou a ser chamado de IRL, ou "in real life", como se já não fizéssemos tudo só no virtual.

Enquanto algumas galerias, como a americana Pace, uma das casas mais fortes do mundo, já investem em departamentos exclusivos de NFT, outras já levaram à feira "experiências" com os arquivos digitais, alguns invisíveis a olho nu e que se materializam na tela do celular com a leitura de um código QR, outras com verdadeiras salas imersivas, espaços que lembram videogames gigantes em que colecionadores manipulam seus avatares na hora de fazer as compras.

É um tanto paradoxal, é verdade. O cliente vai até Miami Beach, enfrenta todos os protocolos sanitários e um centro de convenções lotado para fazer o que poderia fazer de casa pelo telefone. Mas a aposta da galeria alemã Nagel Draxler parecia talhada para esse mundo que aos poucos se desprende das telas e quer algo ao vivo —o ambiente virtual criado para vender NFTs foi desenhado por ninguém menos que o time de arquitetos antes liderado pela diva Zaha Hadid, a "starchitect" dos "starchitects".

É nesse ponto que essas vertentes a princípio antagônicas se encontram. O mundo da arte nunca foi tão virtual e nunca sentiu tanto desejo por uma materialidade exacerbada, contornos táteis, coisas que provocam todos os sentidos.

Isso explica a explosão de telas carregadíssimas de tinta, massas de cor que saltam da superfície, muita purpurina, pele animal fake, tecidos felpudos, tapeçarias gigantescas. Tudo brilha e tudo dá vontade de pôr a mão. Nesse sentido, Miami nunca foi tão Dubai. Se antes a metrópole árabe se firmou no circuito com obras talvez mais próprias para circos ou bordéis, Miami agora vai na mesma linha. É estonteante, no mau sentido, o volume de cores, texturas e a altíssima voltagem kitsch. Talvez seja o retorno de um mundo de prazeres abortado pela pandemia —e haja açúcar, glitter, glicose.

Nessa nova dieta, houve espaço para a reinvenção do mais antigo dos gêneros da pintura. Artistas que parecem saídos do TikTok e até veteranos ensaiaram um retorno explícito, cheio de nostalgia, à natureza-morta. São ambientes domésticos, mesas de café da manhã ou almoço, aqui distantes dos estudos de cor e volume de um Giorgio Morandi e mais próximos da publicidade.

Na Jeffrey Deitch, Walter Robinson exibia um faustoso hambúrguer que poderia muito bem promover redes de fast food. Na Anton Kern, de Nova York, Mike Silva pintou latas da cerveja Miller ao lado de um vaso de flores, um Norman Rockwell sem Norman Rockwell. Na Marian Goodman, Maurizio Cattelan pôs pombas empalhadas para espreitar uma cena pastiche do barroco, de frangos depenados e peixes à espera do forno e um leitão com olhar melancólico na bandeja. Mais clean, Bruce Cohen pintou tulipas diante de um Mondrian na galeria Berggruen, de San Francisco.

Mesmo gigantes como David Hockney, representado pela britânica White Cube, parecem ter se rendido à moda. Lá estava uma vista interior de seu ateliê, de mesas e cadeiras coloridas e um singelo vaso de flores. A brasileira Ana Prata mostrava na mexicana Travesía Cuatro outro arranjo floral, só que feito de tecido. O também brasileiro Tonico Lemos Auad mostrou uma paisagem bordada no espaço da Stephen Friedman, de Londres.

Se é fato que o mundo viveu uma onda da cerâmica nos anos anteriores, agora é a vez dos panos. Não havia uma única galeria de peso sem uma peça costurada, de nomes em ascensão meteórica, como o americano Hank Willis Thomas, a consagrados, como o tailandês Rirkrit Tiravanija, que bordou numa tapeçaria monumental a frase "um furacão numa gota de porra".

O apego às superfícies também parece ter reforçado outro gênero que vinha se firmando, a arte dos memes. São às vezes reproduções literais de memes que viralizaram feitas com óleo sobre tela e às vezes reproduções —também literais— de telas de computador, emails, mensagens de texto, até mesmo buscas no Google.

Se não temos um tapete fofíssimo, temos a sen sação do toque estéril dos dedos nas telas de celular, os teclados virtuais e seus barulhinhos. Artistas cada vez mais querem eternizar o mais banal do normal. Um deles, Damon Zucconi, na americana JTT, chegou ao ponto de exibir, num pedestal, um iPhone em que mensagens iam aparecendo, um diálogo encenado no limite entre a performance, a escultura e a cara de pau mesmo.

Na mesma Nagel Draxler dos NFTs, telas de Christine Wang eram memes sobre o estado da economia americana. Na Andrew Kreps, Darren Bader pintou um email.

Na contramão desses "white people problems", a Art Basel Miami Beach se tornou vitrine explícita de uma nova geração de artistas negros que vêm conquistando espaço inédito, na esteira do Black Lives Matter e toda a tensão da pandemia, que fez o mundo da arte detonar uma reestruturação.

O brasileiro Maxwell Alexandre, agora alvo de mostra no Palais de Tokyo, em Paris, mostrou em Miami Beach um gigantesco painel da série em que pinta personagens negros frequentando o espaço quase sempre branco dos museus.

Também havia obras dos ganenses Amoako Boafo e Otis Kwame Kye Quaicoe, da britânica Lynette Yiadom-Boakye, da norueguesa Frida Orupabo, do americano Kehinde Wiley, sem contar vozes que despontam, como o brasileiro Rafael Baron, que dominou a Untitled, uma das feiras paralelas. Ou seja, nem tudo é só açúcar.

O jornalista viajou a convite da Art Basel

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