A cavalo, agentes de fronteira nos EUA usam rédeas para ameaçar migrantes

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Agentes na fronteira entre EUA e México montados a cavalo foram vistos usando rédeas para ameaçar migrantes haitianos próximo a um acampamento improvisado em Del Rio, no Texas, neste domingo (19). A atitude foi condenada pela Casa Branca.

Testemunhas relataram à agência de notícias Reuters terem visto guardas com chapéus de cowboys montados em cavalos para impedir a passagem de migrantes. Um deles desenrolou uma corda semelhante a um laço e balançou perto do rosto de um homem. Um vídeo que mostra um agente aparentemente ameaçando pessoas com essas cordas foi compartilhado nas redes sociais.

Após as imagens circularem, a secretária de Imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, disse não saber qual o contexto, mas não imaginava uma situação que “tornaria isso apropriado”. “Não acho que qualquer pessoa que veja o vídeo vá pensar que isso seja aceitável.”

Nas redes sociais, houve comentários de que a imagem de homens brancos perseguindo negros a cavalo encontra eco nas injustiças históricas sorfridas por pessoas negras nos EUA.

O comandante da Patrulha de Fronteira americana, Raul Ortiz, afirmou que o caso está sendo investigado para garantir que não houvesse uma resposta “inaceitável” das autoridades. Por outro lado, defendeu que os agentes estão operando em um ambiente difícil, tentando garantir a segurança dos migrantes ao mesmo tempo em que buscam por possíveis traficantes.

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Já o secretário de Segurança Nacional, Alejandro Mayorkas, explicou que essas rédeas longas são usadas por oficiais a cavalo para “garantir o controle” do animal. “Mas vamos investigar os fatos”, afirmou durante uma entrevista coletiva em Del Rio.

A cidade texana viu um surto maciço de migração, com milhares abrigados em um acampamento improvisado sob a ponte que liga os EUA à mexicana Ciudad Acuña. Mais de 12 mil se aglomeraram no local, e o governador do Texas, o republicano Greg Abbott, disse que esse número chegou a 16 mil no sábado (18).

Nesta segunda (20), com temperaturas chegando a 40°C, migrantes reclamavam da falta de água e comida no acampamento, e alguns cruzavam de volta para o México para comprar mantimentos.

A operação para enviar de volta os migrantes já começou neste domingo (19), com os primeiros voos com haitianos pousando em Porto Príncipe —mais três estavam previstos para esta segunda, de acordo com o site Flightware. Segundo Mayorkas, este deve ser o número de voos de repatriação para o país caribenho.

O premiê do Haiti, Ariel Henry, falou por telefone nesta segunda com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, sobre o retorno dos migrantes. Segundo o porta-voz do departamento americano, Ned Price, os dois “discutiram os perigos da migração irregular, que coloca indivíduos sob grande risco e frequentemente faz com que migrantes e suas famílias adquiram dívidas paralisantes”.

O alto fluxo de migração —mais de 1,5 milhão cruzaram a fronteira neste ano fiscal— impõe desafios políticos e humanitários à gestão de Joe Biden. Uma expulsão em massa de haitianos deve gerar fortes reações de defensores de migrantes, que dizem ser desumano determinar o retorno a um país em condições tão difíceis.

Recentemente, o Haiti passou por uma série de desastres naturais, ocorridos após o presidente Jovenel Moïse ser assassinado, o que aprofundou a instabilidade política na região.

Neste ano, a administração democrata chegou a reverter deportações de cerca de 150 mil haitianos nos EUA que tinham status de proteção temporária, mas o programa não incluía migrantes que chegassem depois da determinação.

O setor de fronteira de Del Rio teve um alto tráfego de migrantes neste ano, especialmente de haitianos que começaram a chegar em números muito mais altos a partir de junho, quando as pessoas apanhadas cruzando a fronteira ilegalmente foram mais que o dobro do mês anterior. E os números continuaram subindo em julho e agosto, segundo estatísticas recentes da fronteira.

No início desta semana, ainda mais haitianos foram detidos tentando cruzar a região, uma extensão desolada de 400 quilômetros na fronteira dos EUA com o México.

A gestão Biden enfrenta ainda intensa pressão de republicanos em razão da atuação na fronteira. Nos últimos meses, Abbott instruiu a polícia estadual a deter migrantes por invasão, porque, segundo ele, a administração Biden não estava agindo.

Embora o governo tenha falado em cancelar um regulamento de saúde pública adotado na gestão Trump que impede solicitantes de asilo de entrar no país, a mudança não foi adotada devido ao alto número de migrantes que cruzam a fronteira ilegalmente e ao recrudescimento do coronavírus nos últimos meses.

Mas, na quinta, um juiz do Texas ordenou que o governo pare de recusar famílias migrantes sob a justificativa do regulamento de saúde, a começar daqui a 14 dias. Devido a isenções humanitárias e outros motivos, o governo só está recusando uma fração das famílias que foram apanhadas na fronteira.

Em agosto, ele usou o regulamento para recusar cerca de 18% das famílias que cruzaram a fronteira sem autorização, segundo dados recentes da polícia. Mas qualquer aumento no processamento de migrantes no país poderá forçar o sistema já tenso.

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