Sementes da enganação – as mentiras da indústria e do governo sobre os alimentos transgênicos



Este artigo é baseado nas entrevistas do americano Jeffrey M. Smith as revistas Caros Amigos e EXTRA classe, Sobre o seu livro “Seeds of Deception-Exposing Industry and Government Lies About the Safety of the Genetically Engineered Foods You’re Eating” (“Sementes da enganação – as mentiras da indústria e do governo sobre a segurança dos alimentos transgênicos que você está comendo”).


Durante seis anos, esse americano formado em administração de empresas pesquisou os bastidores do marketing das empresas de biotecnologia e a íntima ligação delas com o governo e a FDA (Food & Drug Administration), órgão responsável pela liberação de transgênicos no país, aescobriu suborno, milhões de dólares, ameaças, demissões políticas, pesquisas viciadas.

Segundo ele, a população consome alimentos transgênicos que não passaram por testes adequados em função da pressão da indústria de biotecnologia. Também defende a tese de que existe uma campanha deliberada de desinformação em torno da questão a partir da lógica do lucro que subordinaria a pesquisa científica a interesses comerciais imediatos, escondendo da opinião pública mundial informações importantes sobre a falta de segurança nos alimentos que utilizam transgênicos.

Como você começou a pesquisar os transgênicos?
Foi em 1995, e em 1996 passei a dar palestras sobre os perigos que eles trazem para a saúde e o meio ambiente. Depois trabalhei junto a partidos políticos ONGs e ajudei a propor uma legislação que remova os transgênicos das merendas escolares e proteja os agricultores de processos de contaminação de não-transgênicos por meio de polinização. Trabalhei então, por dois anos, como vice-presidente de marketing de um laboratório que detecta transgênicos nos alimentos.

Você decidiu escrever o livro logo que saiu?
Sim. Comecei a contatar outros especialistas, como o doutor Arpad Pusztai, o maior expert em teste de segurança de transgênicos, que em 1996 recebeu um financiamento do governo britânico para, com a sua equipe do Rowett Institute, na Escócia, elaborar testes de segurança para transgênicos. Dois anos após o início da pesquisa, em 1998, ele verificou que os ratos alimentados com um tipo de batata geneticamente modificada, supostamente própria para o consumo humano, sofriam graves danos no sistema imunológico, desenvolviam cérebro, fígado e testículos menores, problemas digestivos e de crescimento das células intestinais, que poderia ou não ser pré-cancerígeno, não sabemos. A essa altura, foi à televisão. Dois dias depois, o diretor do Instituto, professor Phillip James, o demitiu e desagregou a equipe de vinte membros que trabalhava no projeto. Além disso, foram recolhidos todos os dados da pesquisa e disseram a Arpad que não poderia mais falar sobre isso ou iriam processá-lo, porque ele havia assinado um contrato de sigilo. Segundo Arpad, funcionários do Instituto revelaram que, na véspera da demissão dele, houve duas ligações do gabinete do primeiro-ministro para o diretor. O Instituto tentou proteger a indústria divulgando uma série de informações falsas, dizendo que Arpad tinha misturado os resultados, que a batata não era destinada à alimentação humana, esse tipo de coisa… Aconteceu que o parlamento convocou Arpad para um testemunho e ele pôde reaver os seus dados e falar em público. As informações eram tão contundentes e precisas, que foram publicadas na The Lancet, a conceituada revista científica britânica. É o estudo sobre alimentação animal com transgênicos mais aprofundado que já houve.

E o órgão americano para aprovação de alimentos, a FDA, é mais rigoroso?
Não! Acontece que a FDA tem trabalhado muito próximo à indústria. Dou um exemplo: Michael Taylor era advogado particular da Monsanto e depois se tornou o diretor da FDA, revisando as diretrizes para aprovação de transgênicos em 1992. Depois voltou para a Monsanto, tornando-se vice-presidente. E isso é muito comum, pessoas que trabalham para a indústria, depois para o governo, para a indústria… Quando Taylor revisou as diretrizes, o estatuto da FDA passou a dizer que nenhum teste é necessário, se a indústria considera que os alimentos são seguros, não fazem mais perguntas. As empresas não precisam nem mesmo fazer testes de segurança, e mais: não têm nem de informar a FDA que estão introduzindo um novo transgênico no mercado. Isso está escrito no estatuto de 1992, está no site da FDA.

O senhor é o autor de um livro sobre transgênicos no qual escreve sobre o que chama de mentiras contadas pela indústria e pelos governos. Quais são essas mentiras e seus objetivos?
A maioria das alegações feitas pela indústria de biotecnologia são, na verdade, mitos, conceitos não sustentados que fazem a tecnologia parecer segura e benéfica. Eis alguns deles: alimentos geneticamente modificados são seguros e inofensivos ao meio ambiente; são baseados em ciência precisa; foram testados apropriadamente; reduzem o uso de herbicidas, ampliam a área plantada; poupam dinheiro aos agricultores; podem alimentar um mundo faminto; e são necessários e inevitáveis. Tudo isso é contrário a fatos documentados. O objetivo primário de colheitas transgênicas é gerar lucro e controle do mercado por companhias de biotecnologia.

É verdade que os alimentos transgênicos consumidos pelas pessoas não foram suficientemente testados? E o que o senhor pode nos dizer a respeito da pressão da indústria na tentativa de acelerar processos para favorecer os negócios?
Enquanto a indústria biotecnológica alega que a FDA (Food and Drug Administration, órgão do governo dos EUA que regulamenta a produção de produtos alimentares e medicamentos) avaliou a fundo os alimentos geneticamente modificados e declarou-os seguros, documentos internos da FDA tornados públicos em uma ação judicial revelam que cientistas da agência alertaram que alimentos geneticamente modificados poderiam criar toxinas, alergias, problemas nutricionais e novas doenças que poderiam ser difíceis de identificar. Apesar desses alertas e das crescentes provas de perigos potenciais, a FDA alega que os alimentos transgênicos não têm nenhuma diferença e não requerem testes mais seguros. Um fabricante pode introduzir um alimento transgênico nos Estados Unidos sem sequer informar ao governo ou aos consumidores. Como pôde a agência colocar em prática uma perigosa política favorável à indústria quando seus próprios cientistas insistiam em que cada variedade de alimento transgênico deveria se sujeitar a testes de segurança de longa duração antes de serem admitidos no mercado? Uma indicação seria que um ex-advogado da Monsanto se tornou encarregado da política da FDA. Outra indicação vem de um memorando de um ex-comissário da FDA, David Kessler, que descreveu a política da agência como “compatível com a política geral de biotecnologia estabelecida pelo Gabinete Presidencial”. Ele disse que “a política também responde ao interesse da Casa Branca em garantir o desenvolvimento rápido e seguro da indústria de biotecnologia dos EUA”.

Então as políticas de estado e das companhias se confundem?
A política nos Estados Unidos é de que as próprias companhias de biotecnologia determinem se seus próprios alimentos são seguros. Enquanto eles voluntariamente os submetem a estudos, de acordo com o Centro para Ciência de Interesse Público, estes contêm “insuficiências técnicas nos dados de segurança…, bem como alguns erros óbvios que a FDA falhou em detectar.” Alimentos geneticamente modificados são aqueles que têm genes alheios inseridos em seu DNA. Enquanto os cientistas originalmente garantiram que os genes enxertados apenas acrescentariam uma alteração particular desejada ao produto, novas provas sugerem que os genes normais naturais do hospedeiro pode ser modificado, alterado permanentemente, avariado ou alterado no processo. E estas são apenas algumas das maneiras que alimentos transgênicos podem criar efeitos colaterais imprevisíveis e potencialmente perigosos.

O que dizem os cientistas?
Um relatório de janeiro de 2001 de uma equipe de experts da Royal Society do Canadá afirmou que era “cientificamente injustificável” presumir que alimentos transgênicos são seguros e que a “aceitação a priori” de qualquer alimento transgênico é a criação de efeitos colaterais não projetados. Eles exigiram testes seguros, buscando toxicidade humana a curto e longo prazo, alergicidade e outros efeitos sobre a saúde. Infelizmente, só foram feitos uma dúzia de estudos devidamente revisados sobre a segurança de alimentação de animais. O mais profundo deles mostrou evidências de sistemas imunológicos danificados, problemas digestivos e crescimento celular excessivo em ratos alimentados com uma batata experimental transgênica. Os ratos também registram cérebros, fígados e testículos menores. Os cientistas identificaram o “processo” de modificação genética como a causa provável – o mesmo processo usado na criação da maioria dos alimentos transgênicos do mercado. Quando o cientista foi a público com suas descobertas, foi demitido de seu emprego depois de 35 anos e silenciado com ameaças de ser processado. Infelizmente, nenhum estudo publicado ainda testou alimentos transgênicos no mercado para ver se eles criam estes mesmos efeitos danosos em cobaias ou humanos. Ratos alimentados com o tomate transgênico FlavrSavr desenvolveram lesões estomacais. Sete dos 40 ratos morreram no prazo de duas semanas. A safra foi aprovada, mas desde então foi retirada do mercado. Leitoas em Iowa alimentadas com milho transgênico desenvolveram falsas gravidezes. Quando um artigo sobre o assunto foi publicado, o criador foi procurado por uma dúzia de outros fazendeiros que também disseram que a mesma coisa tinha acontecido com seus animais. Nenhuma investigação posterior foi feita. Da mesma forma, fazendeiros protestaram por nenhuma investigação ter sido feita depois de 12 vacas, alimentadas exclusivamente com milho transgênico, terem morrido na Alemanha.

O senhor considera correto afirmar que existe uma espécie de campanha de desinformação quanto aos organismos transgênicos? A que lógica ou interesses atende essa campanha?
Sim. A indústria da biotecnologia usa alegações não sustentadas para promover sua tecnologia. Freqüentemente a indústria se refere a estudos publicados patrocinados pela indústria, os quais muitos cientistas descrevem como “projetados para evitar que se encontre qualquer problema”. Com pesquisa de soja, por exemplo, sérias diferenças nutricionais entre soja transgênica e natural foram omitidas de uma publicação. Estudos alimentares mascararam quaisquer problemas ao usar animais adultos em vez de animais jovens e ao diluir sua soja transgênica a 10 por 1 com proteína não-transgênica. Um laboratório foi instruído a usar um método obsoleto e menos preciso para detectar fitoestrógenos. Milho transgênico não passaria nos testes recomendados pela FAO (Organização das Nações unidas para Agricultura e Alimentação) e pela WHO (World Health Organization) para prevenir que colheitas transgênicas-alergênicas cheguem ao mercado. O leite foi pasteurizado 120 vezes mais num esforço para destruir um hormônio. Vacas que adoeceram foram supostamente removidas dos estudos, enquanto aquelas que estavam prenhas antes do tratamento foram adicionadas aos estudos tentando provar que os tratamentos não interferiram com a fertilidade. Estes são numerosos exemplos de como a indústria biotecnológica controla as mensagens na imprensa. Por exemplo, ameaças de processo pela Monsanto resultaram no cancelamento de programas de TV, um contrato de publicação e distribuição de revistas. Muitos dos principais argumentos usados como base pela indústria e pelo governo em suas alegações de segurança tem se comprovado errôneos ou permanecem não testados. Embora eles continuem a promover o mito de que os transgênicos são necessários para alimentar o mundo, conforme estatísticas de produção de alimentos da ONU, isso não é verdade. Além disso, plantações transgênicas aumentam o uso de produtos químicos agrícolas e, na verdade, reduzem as áreas médias plantadas. Um exame mais profundo dos dados nos leva a concluir que esses alimentos nunca deveriam ter sido aprovados e que comê-los é jogar com sua saúde.

Que tipo de efeitos colaterais as pessoas podem sofrer ao consumir produtos à base de transgênicos? Há pesquisas que sustentem suas afirmações?
O único teste de alimentação humana já conduzido confirmou que os genes transgênicos da soja transferidos para a bactéria no interior do trato digestivo tornaram a bactéria resistente a herbicidas. (A indústria biotecnológica dissera anteriormente que tal transferência era impossível.) A WHO , as Associações Médicas Britânica e Americana e diversos outros grupos tem expressado a preocupação de que se “genes resistentes a antibióticos” usados em alimentos transgênicos conseguiram se transferir para uma bactéria, isso poderia criar superdoenças que não poderiam ser tratadas com antibióticos. O que poderia ser ainda mais perigoso é se o promotor, inserido no DNA para manter o gen alheio permanentemente ativo, se transferisse para a bactéria intestinal humana ou órgãos internos. Os promotores podem, não intencionalmente, se transmutarem em outros genes que existam naturalmente no DNA, fazendo com que se tornem proteínas potencialmente tóxicas ou alergênicas. Estes podem também criar um “ponto de fusão”, um ponto de instabilidade genética que pode causar danos à estrutura e função do DNA. Alguns cientistas acreditam que os promotores podem se transmutar em vírus dormentes que se alojariam dentro do DNA ou poderiam mesmo gerar um crescimento celular descontrolado que teoricamente poderia levar ao câncer. (Evidências de crescimento celular foram descobertas em três dos estudos publicados sobre alimentação de animais com transgênicos.) Em 22 de fevereiro, o Instituto Norueguês para a Ecologia do Gen divulgou a notícia de que promotores intactos foram encontrados em tecidos de rato duas horas, seis horas e três dias depois de os ratos ingerirem apenas uma ração com material transgênico. Eles também verificaram, in vitro, que o promotor trabalha dentro do DNA humano. O instituto também denunciou que pólen do milho Bt geneticamente modificado tinha deflagrado reações cutâneas, intestinais e respiratórias em pessoas que viviam próximas à plantação de milho nas Filipinas. Se for assim, esta não seria a primeira doença relacionada à modificação genética.

E sobre a relação entre sementes transgênicas e alergias?
No Reino Unido – um dos poucos lugares que faz avaliações anuais de estatísticas sobre alergia –, casos de alergia à soja tiveram um aumento estupendo de 50% logo depois que soja transgênica foi importada pela primeira vez dos Estados Unidos. Isso pode ter resultado da quantidade aumentada do mais comum alergênico da soja, o inibidor trypsin, na soja geneticamente modificada Roundup Ready ou talvez da proteína naquela soja que nunca antes tinha sido parte da alimentação humana. Leite e produtos derivados de vacas tratadas com o leite à base de hormônio bovino geneticamente alterado (bGH) contêm uma quantidade maior de hormônio IGF-1, que é um dos mais altos fatores de risco associado com câncer de mama e de próstata. Conforme um relatório de março de 2001, o Centro de Controle de Doenças afirma que os alimentos são responsáveis por um número duas vezes maior de casos nos Estados Unidos em comparação com dados de apenas sete anos antes. Este aumento corresponde ao período em que os americanos estavam consumindo grandes quantidades dos recém-introduzidos alimentos transgênicos. Poderia isso ter contribuído para as 5 mil mortes, 325 mil hospitalizações e 76 milhões de doenças relacionadas com alimentação a cada ano? É difícil dizer já que não existe monitoração no país.

O senhor já menciona casos que resultaram em morte no seu livro. Como foi isso?
Nos anos 1980, uma epidemia mortal foi relacionada ao suplemento alimentar L-triptófano criado a partir de uma bactéria geneticamente modificada. Cerca de cem americanos morreram e entre 5 mil e 10 mil caíram doentes – alguns ficaram incapacitados permanentemente. Defensores da biotecnologia, com sucesso, desviaram a culpa da engenharia genética ao atribuir a doença a mudanças no sistema de filtração na fábrica. É sabido, entretanto, que centenas de pessoas contraíram a doença a partir de versões geneticamente modificadas de L-triptófano criadas durante os quatro anos anteriores à mudança no filtro. A FDA tinha a informação que teria desacreditado a teoria do filtro, mas escondeu os fatos do público e do Congresso. A doença criada pelo L-triptófano contaminado era aguda, rara e evoluiu rapidamente. Se todas essas três características não estivessem presentes, é pouco provável que os médicos tivessem identificado o suplemento como causa; ele ainda poderia estar no mercado. Isso nos leva à pergunta: existem outros produtos geneticamente modificados no mercado criando sérios problemas de saúde e que não são identificados?

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