OPINIÃO SOBRE A COPA DO MUNDO


Como não posso deixar passar em branco, envio a vocês uma ÓTIMA OPINIÃO SOBRE A COPA DO MUNDO emitida por MINO CARTA, da Revista Carta Capital…

MINO CARTA

MELHOR FUTEBOL DO MUNDO?

O Brasil é a terra da bola, com safras únicas de talentos. Procuremos entender por que falta espírito crítico
Na noite de sábado, 1º de julho, um dos especialistas da enésima, interminável, arrogante e penosa mesa-redonda global afirmava: “Ainda somos o melhor futebol do mundo”. Aquele que acabava de perder para a França de Zinedine Zidane. Aquele de Ronaldinho, Ronaldo, Roberto Carlos, Cafu e Cia.

Repetita juvant, diziam os antigos romanos, a repetição ajuda. Repita e repita, até que todos acreditem, inclusive o autor da afirmação inicial. Neste nosso Brasil, a credulidade é proporcional à distância que nos separa da razão. Mas, antes do revés do melhor futebol do mundo, vem, a largas passadas, o fracasso da mídia e de quantos acreditaram nela.

A começar pelos publicitários nativos. Tiraram a mulher nua da ribalta e a substituíram pelo craque que ri. Do quê, a esta altura, não se entende. Podemos é rir de nós mesmos. Por exemplo: como sempre, não houve equipe maior de jornalistas, cinegrafistas e que tais, do que a verde-amarela. De longe, de muito longe, a mais imponente.

O Brasil é, de resto, o único país do mundo em que se transmitem ao vivo os treinos da seleção. Aquele espetáculo divertido, horas a fio: jogadores entretidos em embaixadas, goleiros a saltitar entre uma bola e outra, Ronaldinho experimentando seu canhão (folha-seca ou folha murcha?) contra barreiras de madeira. E mais lances similares, naquele recreio folgado, enfeitado, à margem, por torcedoras em trajes de coristas. Haja alegria.

O futebol é apenas um jogo, empolgante, está claro, show grandioso merecedor de platéia infinda e refletores imensos. Jogo é, porém. E a nós convém compreender que nossa paixão nasce também, e sobretudo, de um recalque igualmente imenso. Ou infindo. Sim, todas as torcidas choram na hora da derrota, nem por isso é consolo.

Quando, aos 12 anos, cheguei a São Paulo e fui estudar no Colégio Dante Alighieri, agosto de 1946, muitos colegas e contemporâneos, mesmo filhos e netos de italianos, encaravam-me com antipatia por enxergar em mim um torcedor da azzurra, vencedora do último Mundial, o de 1938, disputado na França. Na semifinal, a Itália eliminara o Brasil por 2 a 1, graças a um pênalti, segundo eles inventado pelo juiz.

Na época, os juízes de futebol eram bem mais confiáveis do que hoje, ainda assim essa era a crença e eu carecia de informações para desmenti-la. Tempos depois, fim da década de 50, na Itália vi o filmado dos momentos principais daquela partida. O pênalti existiu, cometido por Domingos da Guia sobre Piola, a azzurra ganhava por 2 a 0 até os minutos finais, quando a seleção brasileira fez seu gol.

Verdade é que Leônidas, revelação daquele campeonato, não estava em campo, machucado. Verdade, também, é que a maioria dos espectadores torceu pelo Brasil. Primeiro, porque o time italiano representava o país de Mussolini. Segundo, porque francês encanta-se com o exotismo do Trópico. Tropical splendour, diria Cole Porter.

No Mundial de 1950, a seleção canarinho começou em câmara lenta e encontrou a escalação definitiva nas oitavas. Havia ali cinco jogadores excepcionais, Bauer, Danilo, Zizinho, Ademir e Jair, e um bom goleiro, Barbosa, destinado a tornar-se o costumeiro bode expiatório, juntamente com o lateral-esquerdo Bigode.

O dia da final, contra o Uruguai, fica na história das tragédias, como registram os genes nativos para todo o sempre. A celeste olímpica não desmereceu a vitória. Era um time mais equilibrado do que os canarinhos, graças à melhor distribuição dos craques indiscutíveis, Maspoli, Matias Gonzáles, Rodrigues Andrade, Obdulio Varela, Ghiggia, Schiaffino, em todos os quadrantes do gramado.

Em 1954 o Brasil foi eliminado pela Hungria de Puskas, por 4 a 2, nas oitavas. Ouvi o jogo pelo rádio, em ondas intermitentes, ora marulhar de baixa maré, ora rugido do mar enraivecido pela teimosia do rochedo. Dava para entender, de todo modo, que o juiz, certo Mister Ellis, favorecia desbragadamente os magiares.

Anos adiante, assisti ao filme da contenda e constatei que o inglês fizera seu papel com dignidade, enquanto os húngaros sustentavam o seu com excelência. Em compensação, a delegação brasileira agrediu os vencedores no fim do jogo, em campo e pelo corredor do vestiário. Nunca esquecerei a perfeita pontaria de uma chuteira atirada por mão nativa contra a cabeça de um prócer adversário, e do jornalista Paulo Planet Buarque no ataque aos danubianos de clava em punho, digo, o guarda-chuva.

A virada é de 1958. Não sei se foi obra do técnico Vicente Feola, Hitchcock pachorrento e sem malignidade, ou dos próprios jogadores. Deu-se, de fato, que em campo acharam a escalação ideal e promoveram uma revolução. Inventaram o 4-2-4, capaz de tornar-se 4-3-3. A partir daí, o futebol não seria mais o mesmo.

Naquele time, desde as oitavas, não houve ponto fraco, de Gilmar a, pasmem, Zagallo. No gramado, então sim, então claramente, o melhor futebol do mundo. O qual, ainda que envelhecido, confirmou a supremacia quatro anos depois, no Chile.

Pano rápido sobre o desempenho de 1966. Fica a imagem de Pelé ao sair de campo, na tarde sombria da eliminação, envolto em um cobertor. Mas em 1970, no México, os canarinhos voltaram a praticar, em largos momentos, o melhor futebol do mundo. Contra a azzurra, na final, torci pelo Brasil, e os meus colegas de então, da redação de Veja, hão de se lembrar do meu comportamento.

Dias após, sofri a amargura do arrependimento, ao ver no vídeo o general Emílio Garrastazu Médici a se entregar a uma série lamentável de embaixadas na praça dos Três Poderes. Não consegui furtar-me a um pensamento banal sobre o futebol como, perdoem, perdoem, o ópio do povo. Às vezes, melhor é torcer contra. Se torcer adianta.

De 1970 a 1994 o Brasil não pegou na Taça. O estribilho “campeão moral” soa como desculpa. Quanto ao time italiano que eliminou o Brasil em 1982 no Sarriá era muito bom, embora a mídia brasileira não soubesse. A mídia brasileira ignora muitas coisas, quem sabe porque não consiga esticar sua visão além das fronteiras situadas entre o Oiapoque e o Chuí.

Em 1994 a vitória se deu nos pênaltis. Ninguém negará, contudo, que a campanha da seleção verde-amarela foi melhor do que a do outro finalista, a azzurra. Pequena observação: previamente, o dono da Fifa, João Havelange, prestava deliciosa homenagem ao seu ex-genro Ricardo Teixeira, dono da CBF, a todos os demais competidores, ao “descobrir” (não gosto de palavras entre aspas, mas desta vez cabem) que Maradona era dado a drogas. Claro, claríssimo: a Argentina crescia. Fora Maradona, encolheu. Tudo ficou mais fácil. Pano rápido sobre 1998. Zidane é Zidane, Ronaldo é Ronaldo. Quanto a 2002, tenho lá minhas dúvidas, já me pareceu refilmagem da primeira película do cinema americano, The Train Robbery.

Espero que a derrota de hoje não nos acabrunhe demais, bem como sirva de lição, em proveito da liberação do imenso recalque. Ou infindo. Inúmeras vezes, o futebol brasileiro foi o melhor do mundo. O sol, contudo, nem sempre aparece.

Se me disserem que o Brasil é terra de futebol, nisso acredito e assino embaixo (ou em cima). Terra de senhores ferozes e de súditos submissos. A mídia diz trabalhar para estes, é, porém, o exato contrário. A João Havelange e Ricardo Teixeira, e tantos outros do mesmo porte, prefiro Lampião e Maria Bonita.

Aproveitam-se de safras, únicas no mundo, as mais abundantes, de talentos extraordinários, de vocações definitivas, com a contribuição inestimável da fibra longa do músculo mestiço. Mais ou menos como outros senhores construíram seu poder sobre o suor da plebe. Até quando não saberemos emergir da condição de plebe, com direito, entre outros dons, ao espírito crítico?

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  • http://yahoo.com.br benedito

    medalha de diamante para os atletas que superam os recordes dos recordes e quem ficar em 4 lugar vai ficar com a medalha de bronze

  • http://alexjunior123@hotmail.com michelle araujo silv

    Dias antes da partida,Extra despede do Brasil dizendo bom desempenho do Brasil na Copa.Isso significa que ja sabiam derrota e a FIFA ja decidiu quem vai ser Campeao da copa do "MUNDO".

  • http://orkut ABNER

    todos sabemos que a seleção brasileira falhou nas 4ª de finais, porém não podemos chamar o Dunga de fracassado,pois para se chegar em uma semi-final dirigindo uma seleção não é fácil.

    sabemos que o Dunga nunca havia sido tecnico,porem tentou tudo o que pôde para ganhar.

    Sabemos também que para se chegar em uma 4ª de final ou semi-final a seleção deve ser muito forte e só pelo fato de ter chego nessa classificação o tecnico e a seleção já se tornam verdadeiros campeões,ou seja,Dunga e sua seleção jamais poderão ser chamados de fracassados e sim de grandes campeões

  • gerson

    na copa não há lugar para inexperientes e arrogantes, Parabéns DUNGA E MARADONA, Técnico deveria ser escolhido em plebscito nacional

  • paulo Sérgio

    até quando vamos suportar galvão bueno, que é fanático de perdedores como rubinho, fenomeno e kakan que são uns cocôs?

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