Motivos, Delitos e a Mídia


Cresci numa cidade do interior da Bahia, chamada Lapão. Ela fica a 450km da capital Salvador e está dentro da linda Chapada Diamantina. Lá as pessoas costumam se conhecer por apelidos relacionados com seu trabalho ou ramo profissional – João da Padaria, Pedro do Açougue, Tião da Quitanda, Zé Pedreiro. E uma dessas figuras, o “Airton do Correio”, foi protagonista de uma tragédia digna desses programas sensacionalistas da nossa TV aberta.

“Airton do Correio” era um funcionário concursado e de carreira da ECT e “chefiava” a agência do município. Em 2006 ele foi assassinado, num crime cheio de violência e covardia, numa manhã dessas normais em uma cidade do interior, o corpo do Airton foi encontrado numa rodovia esmagado, a agência que ele trabalhava estava saqueada. Airton era casado e pai de dois filhos. Cidadão exemplar, amigo da minha família e um líder comunitário.

Após semanas de investigação, onde parentes de políticos locais e figuras “amigas” da corja política do município eram apontados como suspeitos, o caso foi arquivado e o crime foi transformado em um suicídio. Isso mesmo, a polícia local apontou que o falecido se jogou na frente de um veiculo, que até hoje não se sabe qual é. Quanto ao saque, nenhuma explicação!

Aos amigos e a família coube acatar e dar prosseguimento a vida, sem poder discutir ou exigir qualquer justiça humana. Aliás, ficamos na espera da justiça divina.

2007, dois ladrões de carro mataram um menino de 6 anos que viajava no banco de trás de um Corsa Sedan, dirigido por sua mãe, no subúrbio do Rio de Janeiro. A criança, João Hélio Fernandes, ficou presa ao cinto de segurança quando a mãe, ao ser rendida pelos bandidos que chegaram a pé, tentava tirá-la do carro. Os bandidos saíram em disparada e o menino foi arrastado pendurado ao carro por pelo menos 7 quilômetros.

Um pouco mais de um mês após o crime, João Hélio continua sendo o centro das atenções de editoriais, de protestos de apresentadores de TV, de matérias jornalísticas e de manifestações de ONG’s em todo o país. Os pais de João Hélio, foram e continuam sendo entrevistados por diversas emissoras de Rádio e TV.

São dois crimes bárbaros.

Contudo, enquanto a família do João Hélio está podendo batalhar por justiça e por punição e expor sua dor em canais de TV, jornais e emissoras de rádio. A esposa e os filhos de Airton precisam carregar a dor e ainda a injustiça de vê seu marido sendo tachado de suicida CALADOS. Maior do que a impunidade nesse país é a hipocrisia nossa. Nosso sentimento de justiça é guiado por controle remoto.

Em Lapão, a família do Airton não tem a mídia querendo usar sua história, e, portanto, não vê sinais de justiça. Pergunto, onde está a justiça deste país? Nas telas do Jornal Nacional ou nas delegacias e tribunais? Compadeço-me da dor da família do João Hélio, mas acredito que sua morte, infelizmente não melhorará o senso de justiça da nação e de seus poderes. Meu Deus será que o valor da minha vida é medida por IBOPE!!

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